Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010

AAP e Stephen Hawking

Carta aos sócios da Associação Ateísta Portuguesa a 5 de Setembro de 2010, por Carlos Esperança

A Associação Ateísta Portuguesa não pode deixar de congratular-se com a afirmação do eminente cientista inglês, Stephen Hawking, de que não há espaço para Deus nas teorias sobre a criação do Universo.
Ouvimos bem, nas teorias sobre a CRIAÇÃO do Universo, não há espaço para Deus. Quem o diz é um cientista e a AAP aplaude. Para perceber melhor o problema:

Método científico = problema, hipótese, experimentação, conclusão.

Se o eminente cientista diz que a CRIAÇÃO do Universo é um problem científico e que Deus é hipótese para a qual não há espaço em nenhuma teoria sobre CRIAÇÃO, é porque ele terá testado a hipótese Deus antes de chegar a essa conclusão. Caso contrário, é um charlatão.
Agora, como terá sido possível testar essa hipótese, para podermos aceitar que a conclusão de Hawking é científica? A negação em causa é a de um Criador Divino enquanto necessário à criação, e não a de um divino contingente à criação, que também teria de ter sido criado. Assim, pretender que a ciência tenha afastado a hipótese de Criador, para o problema da Criação, que é um problema filosófico, é a confirmação que nos baste para concluir que a AAP se congratula com charlatanice:

-Hawking não consegue testar ou repetir em laboratório a criação do Universo.
-Hawking apenas pode teorizar e descrever alguns aspectos dessa criação.

Daí, é-lhe totalmente impossível garantir que não há espaço para Deus em nenhuma teoria sobre a origem da criação. Se Hawking, e a AAP, aceitam que que o está em causa é a criação do universo, é porque, la palisse, ele foi criado. Ou seja:

1.Tudo o que começou a existir teve uma causa.
2.O universo começou a existir.
3.O universo teve uma causa.

Aquilo que Hawking está a dizer, e que a AAP acha científico, é que não há espaço para um criador Pessoal, Atemporal, Não Criado e Imaterial (Deus) como hipótese de definição da causa concluída como NECESSÁRIA no ponto 3.
É importante este ponto, porque os argumentos filosóficos que sustentam os atributos de Deus derivam do raciocínio acima. A partir da conclusão de que o universo, necessariamente, teve uma causa, discutem-se as características dessa causa. Qualquer ateu que se diz promotor da Razão, tem a obrigação de conhecer os argumentos que defendem a causa do Universo como exposta acima: Pessoal, Atemporal, Não Criada e Imaterial. Negar Deus como necessário é o mesmo que negar uma causa com essas qualidades para o início do Universo. Um ateu, para o ser, além de negar divindades contingentes ao Universo, também terá de negar a existência de Deus como necessidade.
Por isso, em vez de celebrar a falácia da autoridade, a AAP deveria ter antes apresentado o PORQUÊ de concordar com a afirmação de Hawking, ou seja, quando e como terá Hawking refutado definitiva e cientificamente os argumentos que atribuem aquelas características à causa do Universo.

O cientista usado pelas Igrejas para mostrar que, à falta de argumentos, as crenças têm quem as defenda, exibiam a sua enorme inteligência com a beata insinuação de que os ateus não estavam à sua altura, como se isso provasse a existência do deus criado pelos homens e à custa do qual vivem as religiões.
É engraçado ver a AAP acusar os outros daquilo que está a fazer com este comunicado.
Eu concordo que teria sido falacioso da parte de qualquer igreja usar o nome de Hawking como argumento de autoridade em relação ao problema filosófico de Deus. Mas não sei a quem se refere concretamente esta parte do comunicado. Até porque não vejo qual a necessidade ou plausibilidade disso: com tantos e bons argumentos filosóficos favoráveis à existência de Deus, qual religião iria basear a sua teologia nas opiniões de Hawking, que tem apenas 68 anos de vida e ainda menos de actividade intelectual?
O que posso concluir do parágrafo acima é que a AAP considera que a falácia de usar o nome de alguém como bom argumento favorável à existência de algo; refuta-se usando o mesmo nome como bom argumento favorável à inexistência do mesmo algo, quando esse nome muda de opinião.
Na verdade, o que está provado é que Hawking é o cientista usado pela AAP para mostrar que, à falta de argumentos, o ateísmo medíocre dos seus associados tem quem o defenda, exibindo o enorme prestígio mediático do cientista com a estúpida insinuação de que nenhum crente em Deus está à altura da AAP e como se isso provasse a inexistência de Deus, suposta inexistência à custa da qual os membros da AAP querem construir fundamento ético e filosófico.


A afirmação de que o Big Bang foi apenas uma consequência das leis da Física sem qualquer papel de Deus, deixa os vendedores de ilusões mais sós.
Pois é, afinal, todos sabemos que a definição dos atributos da causa inicial do Universo dá-se por ad populum. Quem estiver mais só, perde. Talvez, como no futebol de rua, também este jogo acabe aos 10 (cientistas) e mude aos 5. Quem é o mesmo vendedor de ilusões, senhor Esperança?
Concentremo-no na afirmação "Big Bang foi apenas uma consequência das leis da Física", recordando o raciocínio:

1. Tudo o que começou por existir teve uma causa
2. O universo começou por existir.
3. O universo teve uma causa.

Portanto, na afirmação de Hawking concluimos que se pretende que o Big Bang seja o início, e as leis da Física a causa. Vamos analisar, antes de tudo, como terá de ser a causa do universo:

4. Ou essa causa é criada ou é não-criada.
5. Se essa causa é criada, teve um criador, que por sua vez teve um criador, que teve um criador...
6. Mas uma sequência de criação infinita é absurda: implicaria um passado infinito e impossível o presente onde se dá a criação do universo.
7. Logo, a causa primeira de tudo o foi criado, é não-criada.
8. Essa causa ou é um ser pessoal com vontade, é uma existência impessoal sem vontade.
9. Se essa causa for impessoal e sem vontade, o universo existe porque tinha de existir.
10.Mas se o universo existe porque tinha de existir, como consequência inevitável de leis impessoais ( como pretende Hawking), isso é incompatível com a causa inicial que já concluímos ter de ser não-criada. Uma causa não-criada não é existência antecedida de nenhuma sequência, logo, não tem necessariamente de dar sequência a algo.
11. Assim, o Universo não tinha de existir.
12. Logo, a causa não-criada que lhe dá origem, tem de ser uma existência pessoal, com vontade.

Conclusão: A AAP entende que Stephen Hawking provou cientificamente que a causa não-criada que deu origem ao universo, são as leis da física como mera CONSEQUÊNCIA. Ora, como se pode provar cientificamente o que é logicamente absurdo? O não-criado não tem consequências criadoras inevitáveis.

A teoria do professor Stephen Hawking surge no seu novo livro, intitulado The Grand Design, e contraria as posições assumidas anteriormente pelo cientista, que chegou a defender que a crença num Criador não era incompatível com a Ciência, num livro publicado em 1988.
Assim se percebe o regojizo da AAP, deve ser do alívio. Durante estes anos atormentava-lhes a ideia, baseada na ignorância daquelas cabecinhas, de que o grande argumento favorável à existência de Deus era o nome de Stephen Hawking. Entretanto, dá-lhe o vento norte, Hawking determina que Deus nem como hipótese tem "espaço" e a AAP sai à rua festejando aquilo que entende ser a vitória a seu favor na derradeira questão sobre Deus: a opinião de Hawking sobre o que determina a ciência em assuntos não científicos.


A AAP reitera a sua satisfação pela conclusão de Stephen Hawking a respeito do Big Bang e subscreve as palavras de outro grande cientista e referência dos ateus, Richard Dawkins, a esse respeito: «Obrigado Hawking. Disseste alto e bom som o que todos nós já repetimos sem fim: deus não faz parte da explicação do mundo em que vivemos».
Se a Associação Ateísta Portuguesa determina quem são os grandes cientistas e as referências dos ateus, é porque se tem como organização científica e organismo oficial do ateísmo. Podem subscrever o que lhes apetecer e até comprometer com as suas declarações, arbitrariamente claro, todos os biólogos, cosmólogos e ateus. Isso até nem é o mais caricato. Cómico mesmo é acharem que ciência prova a inexistência de Deus com o grande argumento de que um cientista terá dito a outro"sentimos gratidão por dizeres o que nós dizemos". Gratidão e congratulação por haver quem concorde com a AAP, eis a base do pensamento crítico dos seus associados e grande motivo para fazerem declarações oficiais.
Assim se prova que em Portugal o neo-ateísmo não foge à regra de se resumir a doutrina de auto-ajuda: somos fortes, há mais como tu: não vaciles no teu ateísmo,campeão!
Simplesmente patético.

1 comentários:

  1. A improbabilidade do universo, como é, ter surgido de forma randômica, fez com que cientistas apelassem pelo argumento metafísico do multiverso. A sintonia fina apela por um projetista.

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