Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010

A Canção de Hélder Sanches

Hélder Sanches compôs e escreveu recentemente a "canção ateísta" Keep the Faith in You
Portanto, parece que o Portal Ateu, esse projecto de uma sociedade melhor para a Humanidade, já tem hino oficial.
Constituição também já tinham, aquela onde assumem pretender abolir da sociedade as influências perniciosas da realidade que transcende o conhecimento humano.
Só lhes falta mesmo uma bandeira à maneira, para poderem finalmente rumar à colonização do Sol e confirmar a teoria "filosófica"silvestriana sobre a fauna do astro-rei.
Fiz a tradução do lindo poema de Hélder Sanches em inglês. O que tem vantagens. Aumenta as hipótese de tornar a canção famosa junto de palermas internacionais e dá para insultar os nativos de modo que soa menos ordinário. Foi o truque utilizado recentemente por Rui Rodrigues quando pretendeu insultar o líder religioso de milhões de portugueses. Bem, indo ao assunto, silêncio que se vai cantar um triste fado. Os versos do Sanches a negrito, e as minhas observações abaixo destes:

"Já falaste com o teu amigo imaginário hoje?
Logo a abrir, técnica do amigo imaginário. Fraquinho, Sanches, fraquinho...
Quando se trata de saber se existe um Ser com determinados atributos, a negação e a afirmação dessa existência, tem de ser feita sobre aqueles atributos que estão em discussão. O ateu que junta à lista "amigo imaginário", tem de demonstrar que esse atributo se aplica ao conceito.

"Como sempre, pediste-lhe que te mostrasse o caminho?"
Sujeito poético a dar para o intrometido, o desta canção "ateísta"...
Faz mais sentido pedir orientação a um ser perfeito omnisciente ( quando se acredita que Ele existe) do que ficar derretido com as considerações de um imperfeito macaco tagarela evoluído sobre "objectivos comuns" para a humanidade. Tens de começar a olhar mais para dentro da tua casa, ó Sanches...

"Por que não confias antes em alguém de carne e osso, em vez de perderes tempo, ouvindo vozes dentro da tua cabeça?"
Pois, o crente em Deus, esse maluco que passa o dia a ouvir vozes dentro da cabeça. Belíssima canção "ateísta". De um respeito, subtileza e profundidade intelectual, que nem vos digo nada.
Sanches, por que não confias antes no teu materialismo, em vez de pedires aos outros para terem confiança em babuínos de fato e gravata?

"Já tentaste obter o que queres com as tuas próprias mãos?"
Ando a pensar nisso. Entretanto, estou à espera de um subsídio do Portal Ateu para sobreviver e fazer algo da vida.
Garanto-vos, é assim pensam todos os crentes em Deus quando ouvem este grande som.
Ou então "espera aí, eu nunca saí de casa para trabalhar cedo, ainda estou à espera que Deus me pague as contas. Olha, o Sanches tem razão. Vou ser ateu!"
Aqui, o "poema" já estava nitidamente a descambar para a sessão de auto-ajuda: és valente campeão, acredita em ti!

"Não percebes, que pareces um miúdo sob comando de uma ilusão?"
Tu é que pareces! Vou dizer à minha mãe, na-na-na-na-na....
Ok, saindo deste nível de profundidade filosófica, à Sanches. Um excerto de Chesterton que é elucidativo sobre quem é o iludido aqui:

"Quer saber onde ficam os homens que acreditam em si mesmos? Eu sei. Sei de homens que acreditam em si mesmos com uma confiança mais colossal do que a de Napoleão ou César. Sei onde arde a estrela fixa da certeza e do sucesso. Posso conduzi-lo aos tronos dos super-homens. Os homens que realmente acreditam em si mesmos estão todos em asilos de lunáticos" Ortodoxia

"É tempo de afastares todos os teus medos sombrios. Celebrando a vida, com todas as suas limitações e fronteiras."
O Sanches é um corajoso e, por isso, não acredita em Deus e tem um plano porreiraço para aproveitarmos melhor a existência.
Vá, palmas para ele, o mestre de cerimónias desta festa que é a vida...

"Ohohoh, é melhor que mantenhas fé, é melhor que mantenhas a fé em ti."
Este refrão pode ser irónico. Tanto pode significar:

-"Ohohoho, é melhor acreditares em ti, é melhor teres mais auto-estima" ( versão auto-ajuda)

-"Ohohoho, é melhor que não uses a tua liberdade para expressares a tua religiosidade fora de casa, seu maricas, saloio e mentecapto, porque isso prejudica a sociedade e o estado perfeito que eu e os meus amigos queremos para a Humanidade" ( versão neo-estalinismo)

"Já reparaste nas maravilhas da natureza em qualquer lugar que vás?"
Então não! Aves raras é o que tenho encontrado mais por aí...

"Olha à tua volta, por que não procurar respostas na livraria mais próxima?"
Ya, tipo, os crentes em Deus nunca leram livros, nem nunca os vimos a inventar as universidades ou a incentivar o progresso científico, pá.
Imaginas alguma vez um padre a fazer teorias científicas como a do Big Bang, ou assim? Nem brinques...
Se a malta lesse mais livros, ficava mais culta. Como o Sanches, que tem tanta noção do mundo onde vive, que tem esperança de que um dia a dor desapareça...
Ateu, livros. Não ateu, não livros. Uga uga...

"Nesta vida, não há tempo a perder com lavagens cerebrais fantasiosas."
Claro que há, Sanches. Nesta vida, segundo o materialismo que professas, tem tanto valor perder tempo a sofrer lavagem cerebral de Richard Dawkis, como tentar salvar vidas humanas.

"Espero que encontres dentro de ti tudo o precisas para realizar os teus sonhos."
Olha, está interessado nos sonhos e felicidade dos outros. A piada do " Eu Amo Você" não era do outro gajo?

"Já ouviste falar, sobre evolução e as estrelas lá no alto?"
Não. Acredito em Deus, sabes? É por isso...

"Não achas isso incompatível com Aquele que dizes ser Amor?"
És capaz de ter razão. Afinal, como pode existir padrão absoluto omnisciente que seja perfeitamente bondoso, se as auto-consciências que dependeriam dessa omnisciência, até conseguem distinguir se algo está isento de amor ou não. Ganda malha, ó Sanches.

"Vive a tua vida, aproveita-a tanto quanto o puderes."
Pode-se ir à missa e rezar a outra divindade que não a tua, nesse aproveitamento da vida, ó grande Deus-Sanches? Revela-nos o padrão absoluto sobre como se deve viver e aproveitar a vida, rogamos-te!

"De qualquer maneira, tudo depende de ti e não do plano de alguém."
Se o sentido da vida de cada um não depende do plano exterior de alguém, estás a fazer cantigas da treta em modo auto-ajuda, aconselhando que é "melhor" os outros fazerem isto e aquilo...porquê?


(clicar na imagem)

Keep the faith in you, brother! Peace and love, um dia a dor acabará e seremos bué felizes.



Outra canção que também podia ter sido escrita por Hélder Sanches

6 comentários:

  1. Impressionante (daí, talvez não) as vezes que os militantes ateus alegam para não aceitarmos influências externas na nossa vida, mas ao mesmo tempo EXIGEM que olhemos para nós para "melhoria".

    Isto é tão ridículo. Repara na idiotice:

    "De qualquer maneira, tudo depende de ti e não do plano de alguém."


    Mas o "tudo depende de ti" é um plano de alguém". Porque é que devo seguir o plano (exterior a mim) que diz "tudo depende de ti"?

    Sinceramente.

    Abr.

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  2. Pois é Mats! Filosoficamente, o poema é de uma finura e profundidade estrondosa. Por isso é que ele o canta em inglês.

    E em termos musicais, o acústico do "Chá de Cannabis" dos Kussondulola, mete a um canto os arranhanços do Sanches na guitarra eléctrica.

    Aquele solo, é de uma monocordicidade impressionante..até arrepia!

    Moral de ganzado por moral de ganzado, prefiro a dos que assumem que são ganzados, em detrimento dos que querem salvar a humanidade.

    :)

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  3. Caro Jairo,

    Que livro é esse: ""Quer saber onde ficam os homens que acreditam em si mesmos? Eu sei. Sei de homens que acreditam em si mesmos com uma confiança mais colossal do que a de Napoleão ou César. Sei onde arde a estrela fixa da certeza e do sucesso. Posso conduzi-lo aos tronos dos super-homens. Os homens que realmente acreditam em si mesmos estão todos em asilos de lunáticos" Ortodoxia"?

    Cumprimentos.

    Pj

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  4. Caro Jairo, cumprimentos.

    O escritor daquele texto respondeu o seu comentário.

    Ele - digamos - usa certa ironia porque não "gostamos" do que ele disse. A ironia é dele não minha - algo assim...

    http://paulojuniodeoliveira.wordpress.com/2010/09/29/refutando-outro-neo-ateu-inocente/#comment-214

    Cumprimentos.

    Pj

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  5. Olá, Paulo.

    O livro de onde retirei esse excerto chama-se Ortodoxia, e o autor é Gilbert Keith Chesterton.

    Cumprimentos

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  6. Olá, Jairo.

    É o livro que eu pensei mesmo, vou procurá-lo.
    Obrigado.

    Abraços,

    Pj

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