Por ter sido considerado no Diário Ateísta que determinado discurso de Barack Obama sobre religião, se tratou de "defesa da laicidade", importa analisar com rigor tais palavras do então candidato à presidência americana, com vista a concluir se os membros do Diário Ateísta realmente sabem o que é defender a laicidade. Como esclarecimento, o autor deste blogue é favorável à laicidade segundo a definição do conceito que entende ser correcta:
a) a religião, por ser religião, não implica necessariamente que as suas posições sejam as do estado.
b) a religião, por ser religião, não está necessariamente impedida de participar no jogo democrático da discussão de leis nem de colaborar com o estado;
Aqui, serão considerados e mostrados como não defensores da laicidade os que sejam contrários a qualquer um destes dois princípios; por muito que se auto-promovam como defensores do estado laico. Passemos então à análise das palavras de Barack Obama no excerto apresentado pelo Diário Ateísta como "defesa da laicidade":
Dada a crescente diversidade das populações dos Estados Unidos, os riscos de sectarismo estão maiores do que nunca. O que quer que nós tenhamos sido, nós já não somos mais uma nação cristã. Pelo menos não apenas. Nós somos também uma nação judaica, uma nação muçulmana e uma nação budista, e uma de não crentes.
O "sectarismo" invocado por Obama é um termo politicamente correcto que não quer dizer nada. A diversidade das populações dos EUA não é um risco, desde que a liberdade para cada um ser apologista e crente em determinados valores, sobretudo de forma radical ( outro termo com má fama mas que não tem nada de pejorativo em si mesmo), se faça de acordo com o respeito pela lei geral do país. Isso é um direito fundamental e surpreende-me como elegeram os americanos para presidente um tipo que acha arriscado haver diversidade nos EUA. O problema dos americanos terem votado em Obama para presidente, é deles, mas podemos analisar objectivamente a questão dos EUA serem ou não uma nação cristã. Por muitas contas de distribuição da fé populacional que se façam, os Estados Unidos são, se não uma nação cristã, sem dúvida alguma uma nação judaico-cristã. O critério é histórico e de influência cultural, não do número de praticantes. Obama parece confundir a matriz cultural de uma nação, em que cultura se basearam e de qual sofreram influência histórica, tradicional e filosófica as leis fundamentais dos EUA; com prática religiosa individual dos seus cidadãos. E com isso levantou um espantalho que enviesou todo o seu discurso; é que ter os EUA como nação cristã, uma conclusão óbvia; não exclui a defesa intransigente da liberdade religiosa; que sempre fez tradição nos EUA.
E mesmo se tivéssemos apenas cristãos entre nós, se expulsássemos todos os nãos-cristãos da EUA, iríamos ensinar o cristianismo de quem nas escolas? James Dobson ou Al Sharpton?
É Obama quem considera que expulsar não-cristãos para obter uma população totalmente cristã, seria aquilo que permitiria chamar aos EUA uma nação cristã. Dando essa estupidez como certa, levantou outro problema que não existe; mesmo depois dessa expulsão não se poderia chamar cristã à nação norte-americana enquanto houvessem várias correntes de pensamento cristão.
Essas duas questões não fazem sentido, porque considerar uma nação cristã não depende do critério de só ter cristãos entre a população ou de ter uma linha única de pensamento cristão na sociedade; mas antes de ter uma nação historicamente influenciada e originada a partir de uma cultura cristã.
Quais passagens das escrituras deveriam instruir as nossas políticas públicas; deveríamos escolher o Levítico, que sugere que a escravidão é aceitável? E que comer marisco é uma abominação? Ou poderíamos escolher o Deuterónimo, que sugere apredejar o seu filho se ele se desviar da fé?
Obama copiou um truque do movimento neo-ateísta: a escolha selectivamente desonesta de excertos bíblicos.
Se há passagem a indicar aos adeptos destas baboseiras de Obama, como pelos vistos são os autores do Diário Ateísta, será o mandamento "Não prestarás falso testemunho", que é isso que se faz, por omissão desonesta, sempre que se adopta esta técnica de pegar em excertos de códigos civis e vendê-los como doutrina moral.
Para considerar se uma nação é cristã, não é necessário decidir quais passagens vão ser instruidas a partir de determinado momento nas políticas públicas. Basta olhar para a história, tradição, fundação e cultura jurídica do país em causa, e perceber se os valores que a influenciaram são ou não de origem e pensamento cristão. Isso é suficiente para compreender como é ridículo considerar os EUA uma nação hindu, budista, muçulmana ou ateia.
Ou deveríamos ficar apenas com o Sermão da Montanha, uma passagem tão radical que é de se duvidar que o nosso Departamento de Defesa sobrevivesse à sua aplicação?
Obama é tão imbecil que não compreende que o Sermão da Montanha não foi proferido para ser aplicado a sistemas de Defesa Nacional, muito menos condena o acto de defesa.
O que essa passagem condena são coisas como a vingança ou a justiça retributiva; que têm a tendência para serem abolidas nos códigos penais das sociedades de influência cristã.
Então, antes de nos empolgarmos, vamos ler as nossas bíblias. As pessoas não a têm lido.
Eis o artista de palco, empolgadíssimo a seleccionar e a interpetar a Bíblia de forma tão medíocre, a aconselhar os outros a lerem o que ele ignora.
O que me trás ao meu segundo ponto: que a democracia exige que aqueles motivados pela religião, traduzam suas preocupações em valores universais, ao invés de específicos de uma religião.
Isso é muito lindo, só que globalismo utópico não é democracia nem laicidade. A democracia exige apenas liberdade de expressão, de eleger e ser eleito. Ninguém está obrigado pela democracia a ter preocupações universais. Os motivados pela religião têm o direito democrático de expressar a sua religiosidade publicamente como entenderem, no respeito pelas leis. Destas, nem cá nem nos EUA, consta que seja exigência democrática a opinião dos neo-ateístas sobre o que é valor específico de uma religião ou valor universal. Até porque a distinção é estúpida: qualquer cosmovisão defende como sendo valores universais, os valores específicos que considere verdadeiros, seja cosmovisão religiosa ou não.
O que não significa que todos os que considerem algo universalmente verdadeiro, sintam que será possível e necessário converter todos os outros às suas ideias. Por isso é uma mentira afirmar que a democracia exige que os religiosos, em vez de defenderem valores específicos das suas religiões, se preocupem com "valores universais". Chamar "universais" aos valores não-religiosos, e "específicos" aos religiosos é mera propaganda totalitária.
O que quer eu dizer com isto? Que ela ( a democracia) requer que as propostas delas ( as religiões) estejam sujeitas a discussão e seja influenciáveis pela razão.
Não. A democracia exige liberdade de expressão, de eleger e ser eleito. O facto de qualquer proposta estar sujeita a discussão e influência da razão, não vem de um requerimento da democracia, mas da própria realidade. Qualquer proposta religiosa, vinda de um humano é possível de ser discutida e já foi influenciada pela razão. Mesmo que seja errada, falsa, imoral ou rejeitada pela maioria. Como só os humanos conseguem ser religiosos, propostas religiosas são intrínsecamente racionais e discutíveis.
O problema reside nos anti-religiosos que não as querem discutir e compreender, e tentam vestir uma camisa de força verbal ao religioso, vendendo a mentira de que a democracia exige que ele adapte as suas crenças, propostas e valores religiosos àquilo que esses anti-religiosos entendem ser "razão". Na prática é dizer que a democracia não permite que o religioso faça a defesa de outros valores que não sejam os anti-religioso, uma tentativa de ditadura em modo circular deturpando os conceitos de "democracia" e "razão. Disputando religioso e não-religioso o que será o mais racional; o último quer impor ao primeiro que o assunto religioso nunca é racional.
Imagine-se que acontecia o contrário: o anti-religioso, que tem o direito de o ser; era publicamente catalogado por um político como estando obrigado pela democracia a sujeitar as suas propostas à discussão e razão. Ficaria claro que na cabeça desse político, a anti-religiosidade não era discutível nem racional.
Eu posso opor-me ao aborto por razões religiosas, mas se eu pretendo aprovar uma lei proibindo a prática, eu não posso recorrer apenas aos ensinamentos da minha Igreja ou invocar vontade divina; eu tenho que explicar porque o aborto viola algum princípio que é acessível a pessoas de todas as fés, incluindo aqueles sem qualquer fé.
Qualquer um tem o direito democrático de exprimir publicamente a sua opinião de que o aborto deve ser legalmente proibido por considerar que essa é a vontade de Deus. Se a maioria concordar ou não com a justificação apresentada, é outra conversa e uma questão de decisão democrática. Mas a justificação em causa não é ilegítima nem atenta contra nenhum princípio de laicidade ou democracia.
Pelo contrário, considerar que é ilegítimo alguém defender publicamente, na discussão de uma lei, que o aborto deve ser proibido "porque Deus assim quer", é que atenta contra o princípio da laicidade, pois é determinar que argumentos e justificações religiosas ou teológicas têm de ser publicamente consideradas como diferentes de todas as outras; o que seria uma machadada no princípio da neutralidade.
E ninguém tem de explicar, por causa da democracia ou da laicidade, que o aborto viola princípios partilhados por todas as pessoas, de todas as crenças. Isso é lógica circular e uma atitude extremamente anti-democrática. Se só se pode ser publicamente contra o aborto por razões a que todos os outros consigam "aceder", e como haverá sempre pessoas a favor do aborto a considerar qualquer justificação contra ele "inacessível" à sua capacidade de julgamento e compreensão; significaria isso que ninguém poderia ser contra o aborto, até que todos o fossem também!
A questão está toda invertida: os "obamas" e os "ateístas diários" podem ser a favor do aborto por razões anti-religiosas; mas se querem aprovar leis abortistas, têm de demonstrar que é moralmente aceitável matar seres humanos indefesos, não importa as muitas, variadas e boas razões, religiosas ou não, em que a nossa cultura se tenha baseado para proibir a destruição desses seres humanos.
Vejamos: o aborto estava estabelecido como proibido, há muitos anos. Há quem queira legalizá-lo. Considere o leitor, por princípio democrático básico, se é o proponente da legalização do aborto quem tem o ónus de apresentar boas razões à comunidade que a levem a concordar com a legalização da prática; ou se é qualquer um que concorde com a lei que vigora a ter de provar ao abortista que não é contra o aborto por razões religiosas...
a) a religião, por ser religião, não implica necessariamente que as suas posições sejam as do estado.
b) a religião, por ser religião, não está necessariamente impedida de participar no jogo democrático da discussão de leis nem de colaborar com o estado;
Aqui, serão considerados e mostrados como não defensores da laicidade os que sejam contrários a qualquer um destes dois princípios; por muito que se auto-promovam como defensores do estado laico. Passemos então à análise das palavras de Barack Obama no excerto apresentado pelo Diário Ateísta como "defesa da laicidade":
Dada a crescente diversidade das populações dos Estados Unidos, os riscos de sectarismo estão maiores do que nunca. O que quer que nós tenhamos sido, nós já não somos mais uma nação cristã. Pelo menos não apenas. Nós somos também uma nação judaica, uma nação muçulmana e uma nação budista, e uma de não crentes.
O "sectarismo" invocado por Obama é um termo politicamente correcto que não quer dizer nada. A diversidade das populações dos EUA não é um risco, desde que a liberdade para cada um ser apologista e crente em determinados valores, sobretudo de forma radical ( outro termo com má fama mas que não tem nada de pejorativo em si mesmo), se faça de acordo com o respeito pela lei geral do país. Isso é um direito fundamental e surpreende-me como elegeram os americanos para presidente um tipo que acha arriscado haver diversidade nos EUA. O problema dos americanos terem votado em Obama para presidente, é deles, mas podemos analisar objectivamente a questão dos EUA serem ou não uma nação cristã. Por muitas contas de distribuição da fé populacional que se façam, os Estados Unidos são, se não uma nação cristã, sem dúvida alguma uma nação judaico-cristã. O critério é histórico e de influência cultural, não do número de praticantes. Obama parece confundir a matriz cultural de uma nação, em que cultura se basearam e de qual sofreram influência histórica, tradicional e filosófica as leis fundamentais dos EUA; com prática religiosa individual dos seus cidadãos. E com isso levantou um espantalho que enviesou todo o seu discurso; é que ter os EUA como nação cristã, uma conclusão óbvia; não exclui a defesa intransigente da liberdade religiosa; que sempre fez tradição nos EUA.
E mesmo se tivéssemos apenas cristãos entre nós, se expulsássemos todos os nãos-cristãos da EUA, iríamos ensinar o cristianismo de quem nas escolas? James Dobson ou Al Sharpton?
É Obama quem considera que expulsar não-cristãos para obter uma população totalmente cristã, seria aquilo que permitiria chamar aos EUA uma nação cristã. Dando essa estupidez como certa, levantou outro problema que não existe; mesmo depois dessa expulsão não se poderia chamar cristã à nação norte-americana enquanto houvessem várias correntes de pensamento cristão.
Essas duas questões não fazem sentido, porque considerar uma nação cristã não depende do critério de só ter cristãos entre a população ou de ter uma linha única de pensamento cristão na sociedade; mas antes de ter uma nação historicamente influenciada e originada a partir de uma cultura cristã.
Quais passagens das escrituras deveriam instruir as nossas políticas públicas; deveríamos escolher o Levítico, que sugere que a escravidão é aceitável? E que comer marisco é uma abominação? Ou poderíamos escolher o Deuterónimo, que sugere apredejar o seu filho se ele se desviar da fé?
Obama copiou um truque do movimento neo-ateísta: a escolha selectivamente desonesta de excertos bíblicos.
Se há passagem a indicar aos adeptos destas baboseiras de Obama, como pelos vistos são os autores do Diário Ateísta, será o mandamento "Não prestarás falso testemunho", que é isso que se faz, por omissão desonesta, sempre que se adopta esta técnica de pegar em excertos de códigos civis e vendê-los como doutrina moral.
Para considerar se uma nação é cristã, não é necessário decidir quais passagens vão ser instruidas a partir de determinado momento nas políticas públicas. Basta olhar para a história, tradição, fundação e cultura jurídica do país em causa, e perceber se os valores que a influenciaram são ou não de origem e pensamento cristão. Isso é suficiente para compreender como é ridículo considerar os EUA uma nação hindu, budista, muçulmana ou ateia.
Ou deveríamos ficar apenas com o Sermão da Montanha, uma passagem tão radical que é de se duvidar que o nosso Departamento de Defesa sobrevivesse à sua aplicação?
Obama é tão imbecil que não compreende que o Sermão da Montanha não foi proferido para ser aplicado a sistemas de Defesa Nacional, muito menos condena o acto de defesa.
O que essa passagem condena são coisas como a vingança ou a justiça retributiva; que têm a tendência para serem abolidas nos códigos penais das sociedades de influência cristã.
Então, antes de nos empolgarmos, vamos ler as nossas bíblias. As pessoas não a têm lido.
Eis o artista de palco, empolgadíssimo a seleccionar e a interpetar a Bíblia de forma tão medíocre, a aconselhar os outros a lerem o que ele ignora.
O que me trás ao meu segundo ponto: que a democracia exige que aqueles motivados pela religião, traduzam suas preocupações em valores universais, ao invés de específicos de uma religião.
Isso é muito lindo, só que globalismo utópico não é democracia nem laicidade. A democracia exige apenas liberdade de expressão, de eleger e ser eleito. Ninguém está obrigado pela democracia a ter preocupações universais. Os motivados pela religião têm o direito democrático de expressar a sua religiosidade publicamente como entenderem, no respeito pelas leis. Destas, nem cá nem nos EUA, consta que seja exigência democrática a opinião dos neo-ateístas sobre o que é valor específico de uma religião ou valor universal. Até porque a distinção é estúpida: qualquer cosmovisão defende como sendo valores universais, os valores específicos que considere verdadeiros, seja cosmovisão religiosa ou não.
O que não significa que todos os que considerem algo universalmente verdadeiro, sintam que será possível e necessário converter todos os outros às suas ideias. Por isso é uma mentira afirmar que a democracia exige que os religiosos, em vez de defenderem valores específicos das suas religiões, se preocupem com "valores universais". Chamar "universais" aos valores não-religiosos, e "específicos" aos religiosos é mera propaganda totalitária.
O que quer eu dizer com isto? Que ela ( a democracia) requer que as propostas delas ( as religiões) estejam sujeitas a discussão e seja influenciáveis pela razão.
Não. A democracia exige liberdade de expressão, de eleger e ser eleito. O facto de qualquer proposta estar sujeita a discussão e influência da razão, não vem de um requerimento da democracia, mas da própria realidade. Qualquer proposta religiosa, vinda de um humano é possível de ser discutida e já foi influenciada pela razão. Mesmo que seja errada, falsa, imoral ou rejeitada pela maioria. Como só os humanos conseguem ser religiosos, propostas religiosas são intrínsecamente racionais e discutíveis.
O problema reside nos anti-religiosos que não as querem discutir e compreender, e tentam vestir uma camisa de força verbal ao religioso, vendendo a mentira de que a democracia exige que ele adapte as suas crenças, propostas e valores religiosos àquilo que esses anti-religiosos entendem ser "razão". Na prática é dizer que a democracia não permite que o religioso faça a defesa de outros valores que não sejam os anti-religioso, uma tentativa de ditadura em modo circular deturpando os conceitos de "democracia" e "razão. Disputando religioso e não-religioso o que será o mais racional; o último quer impor ao primeiro que o assunto religioso nunca é racional.
Imagine-se que acontecia o contrário: o anti-religioso, que tem o direito de o ser; era publicamente catalogado por um político como estando obrigado pela democracia a sujeitar as suas propostas à discussão e razão. Ficaria claro que na cabeça desse político, a anti-religiosidade não era discutível nem racional.
Eu posso opor-me ao aborto por razões religiosas, mas se eu pretendo aprovar uma lei proibindo a prática, eu não posso recorrer apenas aos ensinamentos da minha Igreja ou invocar vontade divina; eu tenho que explicar porque o aborto viola algum princípio que é acessível a pessoas de todas as fés, incluindo aqueles sem qualquer fé.
Qualquer um tem o direito democrático de exprimir publicamente a sua opinião de que o aborto deve ser legalmente proibido por considerar que essa é a vontade de Deus. Se a maioria concordar ou não com a justificação apresentada, é outra conversa e uma questão de decisão democrática. Mas a justificação em causa não é ilegítima nem atenta contra nenhum princípio de laicidade ou democracia.
Pelo contrário, considerar que é ilegítimo alguém defender publicamente, na discussão de uma lei, que o aborto deve ser proibido "porque Deus assim quer", é que atenta contra o princípio da laicidade, pois é determinar que argumentos e justificações religiosas ou teológicas têm de ser publicamente consideradas como diferentes de todas as outras; o que seria uma machadada no princípio da neutralidade.
E ninguém tem de explicar, por causa da democracia ou da laicidade, que o aborto viola princípios partilhados por todas as pessoas, de todas as crenças. Isso é lógica circular e uma atitude extremamente anti-democrática. Se só se pode ser publicamente contra o aborto por razões a que todos os outros consigam "aceder", e como haverá sempre pessoas a favor do aborto a considerar qualquer justificação contra ele "inacessível" à sua capacidade de julgamento e compreensão; significaria isso que ninguém poderia ser contra o aborto, até que todos o fossem também!
A questão está toda invertida: os "obamas" e os "ateístas diários" podem ser a favor do aborto por razões anti-religiosas; mas se querem aprovar leis abortistas, têm de demonstrar que é moralmente aceitável matar seres humanos indefesos, não importa as muitas, variadas e boas razões, religiosas ou não, em que a nossa cultura se tenha baseado para proibir a destruição desses seres humanos.
Vejamos: o aborto estava estabelecido como proibido, há muitos anos. Há quem queira legalizá-lo. Considere o leitor, por princípio democrático básico, se é o proponente da legalização do aborto quem tem o ónus de apresentar boas razões à comunidade que a levem a concordar com a legalização da prática; ou se é qualquer um que concorde com a lei que vigora a ter de provar ao abortista que não é contra o aborto por razões religiosas...
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