Sexta-feira, 17 de Setembro de 2010

Diário Ateísta e a Defesa da Laicidade, Parte 2

Por ter sido considerado no Diário Ateísta que determinado discurso de Barack Obama sobre religião, se tratou de "defesa da laicidade"...


Agora, isto vai ser difícil para alguns que acreditam na inerrância da Bíblia, como muitos evangélicos acreditam, mas em uma sociedade pluralista nós não temos escolha.
Bem, se a sociedade é pluralista, significa que há muito por onde escolher. Podemos votar nas propostas dos evangélicos, dos muçulmanos, dos hindus, dos budistas, etc.
Se há evangélicos que são contra o aborto pela questão da inerrância bíblica, essa é uma posição legítima desses cidadãos, do ponto de vista democrático e laico nada há a opor.
Não compreendo como elegeram os americanos um criminoso destes para a Casa Branca, que determina que há cidadãos que "não têm escolha" numa sociedade pluralista. Que o Diário Ateísta promova esta porcaria como "defesa da laicidade", já não me surpreende pois sei que são adeptos do ateísmo de estado.

A política depende da nossa capacidade de persuadir uns aos outros para objectivos com base em uma realidade comum.
Quem lhe terá dito que todos os cidadãos têm de fazer política?!
Numa democracia, ninguém tem o dever de persuadir os outros para objectivos e realidades comuns; nem pode ser obrigado a ser "persuadido" para uma realidade e objectivos que uns ditadorzecos considerem "comuns".
A política pode depender de muitas coisas, mas ninguém está obrigado a considerar o aborto uma questão politicamente discutível. São os que a consideram como tal e a querem legalizar, quem têm o ónus de provar que matar seres humanos inocentes é um bom objectivo e uma prática moralmente aceitável. Claro que matar seres humanos inocentes não é possível de ser defendido como moralmente aceitável por nenhuma pessoa com discernimento moral e é por isso que os abortistas usam estes truques de não falar do que é realmente o aborto, preferindo antes a choraminguice de que os religiosos, esses malvados. têm de finalmente começar a dar boas razões não religiosas para não se legalizar o aborto; porque a religião é de cada um e tal...

Ela ( a política) envolve negociação, a arte daquilo que é possível. E, em algum nível fundamental, a religião não permite encontrar compromisso, é a arte do impossível.
Analise-se todo o discurso anterior até chegar a este ponto e veja-se como o caminho foi preparado para, depois de ter feito chantagem emocional aos ouvintes de que é dever deles terem "preocupações universais", Obama caracterizar a religião como um empecilho à concretização desses compromissos políticos supostamente indispensáveis. Diversidade origina o perigo de "sectarismo", razões religiososas não são democraticamente válidas, a política permite fazer acordos entre todos, a religião divide!
O bom demagogo consegue fazer da ideia de "compromisso", todos agirem da maneira que ele acha melhor, um dever de todos os cidadãos. Obama está 100% certo em considerar a religião um dos principais empecilhos aos seus objectivos "democráticos". Eis a justificação para Obama ter a religião como " a arte do impossível":

Se Deus falou, então espera-se que seus seguidores vivam de acordo com as determinações de Deus, em detrimento das consequências. Basear a vida de uma pessoa em compromissos tão inegociáveis pode ser sublime, mas basear nossas decisões políticas públicas em tais compromissos pode ser perigoso. E, se duvidam deixem-me dar um exemplo.
De espantalho em espantalho, o homem conseguiu chegar ao que queria: a religião é um perigo público e deve ser apenas privada. Os direitos de expressão democrática dos religiosos para defenderem os seus valores e lutarem por leis que achem justas e de acordo com estes, são arbitrariamente anulados por Obama, porque ele sabe que há pontos que a religião não abre espaço para ser convertida por Obama, a referência absoluta do que tem de ser possível e impossível!
Como a diversidade cultural é um problema, não para a democracia, mas para quem tenha um projecto globalista de impor os mesmos valores a todos, é claro que a religião será sempre um dos principais inimigos desses altruístas que nos querem levar a todos ao paraíso.
O religioso tem a tendência para duvidar de promessas de um mundo melhor já que não tem fé no homem, mas em Deus. Seguramente que isto não é negociável nas principais e mais tradicionais religiões: fazer o compromisso de passar a adorar obamas em vez de Deus.
Essa diferença do objecto da fé é o que distingue pessoas malucas que acham que as suas cabeças abrangem a realidade e podem construir a sociedade ideal, das pessoas minimamente normais, que sabem que é um dever fazer o bem e evitar o mal, mas que elas próprias não são fonte de bem nem têm o conhecimento do que seria uma sociedade ideal para todos.
Aconselho a leitura deste excelente texto de Luciano Ayan, Neo-Ateísmo e Al-Qaeda, farinha do mesmo saco para melhor compreensão do que está em causa.
Prosseguindo para a tentativa de Obama exemplificar o porquê da religião ser um perigo público:

Nós todos conhecemos a história de Isaac e Abraão: Deus ordena a Abraão sacrificar o seu único filho, sem discutir ele leva o filho até à montanha e amarra-o ao altar. Levanta a sua faca, prepara-se para agir como Deus ordenara. Nós sabemos que as coisas deram certo, Deus envia um anjo para interceder no último minuto, Abraão passa no teste de devoção divina. Mas é justo dizer que se qualquer um de nós, ao sair desta Igreja, visse Abraão no telhado de um prédio levantando sua faca, nós, no mínimo, chamaríamos a polícia e esperaríamos que os departamentos de proteção de menores retirassem Isaac da guarda de Abraão. Nós faríamos isso porque nós não ouvimos o que Abraão ouve, nós não vemos o que Abraão vê.
O exemplo não demonstra que a religião é um perigo público, é apenas um truque retórico. Se é para levar a história a sério e de modo literal, como Obama pretende, a interpretação desse relato só pode ser: "as coisas deram certo, Deus resolveu tudo, ninguém morreu, confia sempre em Deus".
Obama, às tantas já quer contar-nos outra história e entra em contradição. Se pretende que as pessoas de hoje em dia entrem na história, ela não é a de um homem louco que subiu a um prédio para matar o filho; mas de um homem a quem Deus ( será que Obama sabe distinguir conceitos?) dá uma ordem. Se pretender que a história de Abraão entre literalmente na sociedade de hoje, isso significaria que todos os contemporâneos lá presentes seriam capazes de ver o anjo enviado por Deus, antes de qualquer um se lembrar de chamar a polícia.
Isto é puramente lógico, se a interpretação é literal, terá de ser literal até às últimas consequências. A história resume-se a "Deus mandou", "Abraão cumpriu" E "Deus salvaguardou o Bem". Onde está o perigo da religião que tenha por patriarca uma personagem obediente a um Deus que é definido como bondoso?

Então o melhor que podemos fazer é agir de acordo com aquelas coisas que todos nós vemos e ouvimos. A jurisprudência é senso comum.
A confirmação de que para Obama, é melhor começares a agir e a justificar de acordo com aquilo que todos ou a maioria concordem e não com aquilo que pensas que é verdade!

Então, nós temos algum trabalho para fazer mas tenho esperança de que podemos transpor o espaço que existe e superar os preconceitos que todos nós, em maior ou menor grau, trazemos a este debate. E tenho fé que milhões de americanos crentes querem que isso aconteça.
A confirmação de que pretende "universalizar" a religião para que ela se adapte à "razão", ou seja, às ideias malucas de Obama e Companhia, lda.

Não importa o quão religiosos possam ser, ou não ser, as pessoas estão fartas de ver a fé ser usada como pedra de arremesso. Elas não querem que a fé seja usada para diminuir ou dividir, porque afinal não é assim que veêm a religião nas suas vidas.
Foi Obama quem atacou, distinguiu e catalogou cidadãos e respectivos direitos em função da sua religião.
O problema é ele sentir-se diminuido pelo simples facto de haver quem não concorde consigo. Havendo propostas, religiosas ou não, que defendam determinados valores como verdadeiros, haverá sempre divisão de opiniões, interesses e objectivos dos vários elementos das sociedades que não concordem entre si. Só um louco acha que é sua missão "unir" as opiniões, interesses e objectivos de todos.
Obama quer que os cristãos, por exemplo, o sigam a ele em vez de seguirem a Jesus, já que este disse: "não vim trazer a paz, mas a espada", e Obama diz " as pessoas de fé estão fartas que a religião divida".
Obama acha que os seus valores são verdadeiros; e ao defendê-los parte da premissa de que eles têm de serem aceites universalmente.
O religioso, como o cristão, defende os seus valores como verdadeiros, mas não parte da premissa de que todos irão aceitar universalmente aquilo que a sua religião tem por verdade, antes sabe que as suas propostas irão causar até ódio e desaprovação nos outros.


CONCLUSÃO: O DIÁRIO ATEÍSTA ENGANA OS SEUS LEITORES AO CLASSIFICAR COMO "DEFESA DA LAICIDADE" A APOLOGIA DO ATEÍSMO DE ESTADO E DO SILENCIAMENTO DOS RELIGIOSOS.

1 comentários:

  1. Obrigado Jairo pela análise deste discurso. Já o tinha lido e tinha percebido que estava cheio de falácias, mas não tinha chegado a uma crítica tão objectiva como a que o Jairo fez.

    ResponderEliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...