Têm-se pronunciado sobre a religião católica, mas as criticas que fazem estendem-se a todas as correntes religiosas?
Cada religião diz que é falso o deus de todas as outras e certamente com razão. Nós apenas negamos mais um, o que, no fundo, faz de todos nós ateus.
Falso. Basta alguém acreditar na existência de UM deus para não ser ateu, pois o ateu, necessariamente, acredita que não existe NENHUM deus.
As críticas do ateísmo são comuns a todas as religiões.
Mais uma vez, a AAP a achar que fala em nome de todos os ateus...
Criticamos o budismo cuja compaixão se estende às plantas e aos mais insignificantes animais mas não consegue conter as rivalidades entre os conventos nem impedir o obscurantismo, a tirania e a crueldade dos seus monges no Tibete. E a sua fé não é alheia ao subdesenvolvimento social e económico que oprime os países onde é praticada.
Os membros da AAP, portanto, acham que sabem como é que se desenvolvem e pacificam as sociedades. Tendo em conta o nome da associação, devem pensar que o ateísmo é o caminho para esse futuro radioso.
Também dão como certo que a fé dos budistas não é alheia ao seu subdesenvolvimento, o que se torna muito problemático para a credibilidade desta associação: não existe conceito de "fé" na filosofia budista e seguramente que muitos ateus não o deixam de ser por serem...budistas.
Criticamos os hindus que reclamam as liberdades individuais como apanágio da sua crença e se calam em relação à escravatura que ainda praticam dentro ou fora das castas, quanto à própria existência de castas e aos hábitos de opressão que persistem defendidos nos seus textos.
Neste ponto da entrevista, não há necessidade de qualquer adepto ou crente das filosofias e religiões referidas, as valorizar e defender destes ataques genéricos e patetas. Basta lembrar que o discurso deste porta-voz da AAP entra em contradição com o facto de não haver padrão moral no ateísmo que permita condenar em termos absolutos determinada construção e hierarquia social.
Mas criticamos sobretudo, pela proximidade, os três monoteísmos. O deus do Antigo Testamento, violento, vingativo, misógino e homofóbico, é comum às três religiões do livro. É o deus criado pelas sociedades patriarcais e tribais de há seis mil anos. Hoje é o Islão que lidera a violência e a misoginia, que aterroriza para se impor, que considera grande o seu deus e Maomé o único profeta. O Islão é uma cópia grosseira do cristianismo, que não foi impregnado pela cultura helénica e não sofreu a influência do direito romano. É a religião que vigora principalmente no mundo árabe onde apoia uma civilização fracassada e ameaça a paz.
Em primeiro lugar, não sabemos a justificação para a AAP ter o direito romano e a cultura grega como superiores às religiões referidas. A verdade é que até é mais legítimo dizer que o direito romano e a cultura grega foram influenciadas pelo cristianismo, do que o contrário. Afinal, quando o cristianismo "chegou", já existia direito romano e cultura grega. Muitas práticas violentas por estes admitidas e toleradas social e filosoficamente, foram sendo abolidas com o advento cristão. Hoje em dia temos cristianismo a defender o mesmo que defendia desde o seu início, mas já não temos direito romano e cultura grega a vigorarem.
Quanto ao Islão, é o tal problema... a AAP não tem possibilidade de padrão moral absoluto que permita condenar outra construção social como inferior ao seu "ateísmo como fundamento ético". Ateísmo esse que na tal perspectiva naturalista, não tem mais nem menos validade do que qualquer outra construção social; pois todas terão de ser consideradas de um ponto de vista utilitário.
Mas não esquecemos o sionismo, lepra do judaísmo, nem o protestantismo evangélico, nem o catolicismo romano do Opus Dei, dos legionários de Cristo e dos recentemente reabilitados bispos e padres ordenados pelo bispo Lefebvre, anti-semitas, reaccionários e fascistas .
Sim, não se esquecem de atacar todas as grandes religiões mundiais desta forma honesta, isenta e historicamente rigorosa. O problema é que a associação é "ateísta", o que a a obrigaria a falar mais de ateísmo. Por exemplo, em termos de violência e ataques aos direitos humanos, seria interessante vermos o que o AAP teria a dizer sobre o resultante do tipo de "ateísmo" que defende: anti-religião e ateísmo como caminho para a felicidade global.
Encontram diferenças entre fé e religião, entre crença e igreja?
Claro que há diferenças entre fé/crença e religião/Igreja. A fé não nasce com as pessoas, é incutida no seio das famílias e das sociedades para preservarem os valores herdados e interesses instalados.
Então, onde está a diferença, se a religião/igreja também não nascem com as pessoas?!
Que raio de conversa é esta; a capacidade de andar, ler, escrever, ir à casa de banho sozinho e um monte de outras coisas, também não nascem com as pessoas..
Se se pretende teorizar uma explicação para a fé como sendo incutida socialmente para preservar "interesses instalados", o ateísmo também terá de ser interpretado como socialmente incutido para preservar interesses; pois nessa perspectiva não há espaço para dar ao ateísmo o exclusivo de verdadeiro pela condição "acima de qualquer interesse".
A fé é sempre orientada para a religião dominante.
Falso. "Fé" teve origem nas religiões monoteístas, onde se defende a existência de um único Deus com carácter pessoal capaz de estabelecer uma relação com cada ser humano. Por isso só faz sentido a apologia da confiança ( Fé), não na existência, mas na vontade de Deus; nessas religiões.
A frase em termos absolutos " A fé é SEMPRE orientada para a religião dominante" é refutada pela existência de religiões dominantes nas quais não existe conceito de "Fé" e pelo facto histórico das religiões onde existe esse conceito serem minoritárias e perseguidas quando se originaram.
Já a religião é um sistema de poder que precisa da obediência para sobreviver.
Falso. Muitas religiões foram perseguidas, não tinham o poder e sobreviveram até aos dias de hoje. A religião é uma construção humana para religação ao divino. Não precisa nem tem de ser um sistema de poder.
Por isso as Igrejas usam a violência para se imporem e se, no Ocidente, se conformam hoje com a democracia é porque a repressão política as submeteu.
Um jornalista digno desse nome, teria desafiado Carlos Esperança a dizer expliciticamente qual ou quais foram os políticos que reprimiram Igrejas, para estas se conformarem com a democracia.
O ataque de Esperança foi rasterinho: faz uma distinção entre fé e religião baseada na sua ignorância, para catalogar as religiões como sistemas de poder que usam violência para conquistar obediência. Portanto, perigos públicos para a democracia que necessitam de repressão política. Mesmo que isto fosse verdade, na perspectiva naturalista da AAP não há modo de considerar a tentativa de obtenção de poder de determinado grupo como objectivamente imoral. Mas o maior problema é que esse é um discurso de ódio às religiões feito de propaganda demagógica.
Ter a religião como sistema de poder que se impõe pela violência e tem de ser reprimido politicamente, é um insulto e ameaça gratuita a qualquer religioso, inadmissível numa sociedade onde cada um é livre de expressar a sua religião. A AAP, se quer valorizar o seu ateísmo, não deveria fazer estas figuras indecentes de considerar determinado grupo ou organização social pacífica e culturalmente relevante, como uma ameça pública à democracia sobre a qual deve haver repressão política.
Se a AAP conhece alguma igreja em Portugal que constitua essa ameaça, tem o dever de ser concreta e denunciar o caso às autoridades. Da mesma forma que se eu souber que um indivíduo cigano anda a roubar, tenho o dever de o denunciar e não o de agarrar-me à sua característica "cigano" e vir para a praça pública dizer que, por definição, os ciganos são um grupo social que quer poder pela violência e tem de ser reprimido politicamente.
Qual o papel que deveria ter a religião na sociedade?
A religião deveria pertencer ao foro privado e deixar de impor os seus valores fora das comunidades de crentes, com absoluto respeito pela legislação dos países livres
No decorrer da análise a esta entrevista, lemos Carlos Esperança a defender que a AAP subscrevia a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Ora, achar que é um DEVER a religião pertencer ao foro privado, entra em clara contradição com essa declaração, que afirma ser um direito a expressão pública da religiosidade.
Numa democracia e num estado laico, ninguém tem o direito de dizer a determinado grupo ou organização social não-estatal, que não pode participar na discussão democrática de leis públicas e que tem de se remeter apenas para dentro da sua "comunidade de crentes". Vou recordar o princípio de neutralidade religiosa que já foi abordado neste blogue:
a) a religião, por ser religião, não implica necessariamente que as suas posições sejam as do estado.
b) a religião, por ser religião, não está necessariamente impedida de participar no jogo democrático da discussão de leis nem de colaborar com o estado
A AAP não tem qualquer autoridade para responder à pergunta "Qual o papel que a religião deveria ter na sociedade". Essa pergunta só pode ser respondida por cada religião. Cada uma delas tem o direito de definir o papel que pretenda ter. O limite é a lei e esta não é como a AAP pretende, desonestamente, fazer crer que é.
O Estado não pode considerar que determinado grupo social, apenas porque é religioso, tem direitos democráticos distintos dos restantes, como seja o de não poderem defender os seus valores fora da comunidade de crentes e de tentarem influenciar leis públicas.
Isso seria a abolição do estado laico e neutro em matéria religiosa: considerar a religião uma coisa má para a sociedade e, como tal, impedida de servir de base à discussão de leis.
Dizer na mesma frase que a religião DEVE remeter-se ao foro privado das comunidades de crentes e que isso é "absoluto respeito" pela leis dos países livres, é uma contradição insuperável: os países livres não distinguem opiniões por serem religiosas ou não!
e pela autodeterminação religiosa dos seus fiéis. A apostasia só é crime para as Igrejas. Constitui, aliás, um direito inalienável de cidadania.
Pior ainda é, nessa mesma frase, Carlos Esperança ter referido a autodeterminação religiosa dos fiéis como se a estivesse a defendê-la quando ele, o anti-religioso, determina que os religiosos devem manter as suas opiniões religiosos para o foro privado.
O restante é um mero espantalho. Em Portugal, saiba a Associação Ateísta PORTUGUESA, nenhuma religião pretende criminalizar a apostasia.
Quarta-feira, 15 de Setembro de 2010
Entrevista a Carlos Esperança, Parte 3
Perguntas em itálico, respostas de Carlos Esperança em negrito e os meus comentários abaixo destas.
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