Quarta-feira, 15 de Setembro de 2010

Entrevista a Carlos Esperança, Parte 4

Perguntas em itálico, respostas de Carlos Esperança em negrito e os meus comentários abaixo destas.


A ciência como instrumento de compreensão da sociedade não é ela em si mesmo uma fé?

Não. A ciência vive da dúvida e baseia-se em factos. Evolui à medida que novos dados são conhecidos e nunca consagra como verdadeira uma experiência que não possa ser repetida. Já a religião tem dificuldade em adaptar-se à modernidade e à civilização porque é atribuída a um deus que nunca falou mas que tem guardiões que zelam pela vontade que lhe atribuem.
A pergunta foi estúpida e a resposta ficou-lhe à altura:
-A ciência não é um instrumento de compreensão da sociedade, é um método de obtenção de conhecimento empírico.
-A ciência não "vive da dúvida", baseia-se em lógica, axiomas e epistemologia.
-A ciência não evolui à medida de novos dados. É um método, está definido, e permite ir conhecendo novos dados.
-Distinguir ciência e religião pelo critério "facilidade de adaptação à modernidade e civilização", é tornar religião e ciência entidades sujeitas a um conceito subjectivo e imbecil, como se este fosse um axioma lógico absoluto.
-Definir religião como "atribuida a um deus que nunca falou mas que tem guardiães que zelam pela vontade que lhe atribuem" é imparcial, subjectivo e carente de provas. Como se assegura que "deus nunca falou"?

Como justificam a atitude do Estado, aos diversos níveis, perante a Igreja? E como deveria ser de facto?

A atitude do Estado português tem sido de conivência com a Igreja católica deixando-a penetrar nos hospitais, prisões e Forças Armadas através de capelães que reconhece e remunera de acordo com a Concordata e a lei da liberdade religiosa feitas à medida da religião católica.
A atitude do estado português, segundo a lei, não poderia ser de perseguição ou ostracização da Igreja Católica. Esperança usa o termo "conivência", como se fosse certo que a Igreja Católica fosse uma coisa má para a sociedade e não merecesse ter a colaboração e apoio do estado. Está a responder à pergunta "como deveria ser", mas já vimos ao longo desta entrevista que nunca conseguia justificar os DEVERES que promove como verdadeiros e justos; muito menos de acordo com o seu ateísmo que disse ser "fundamento ético". Sobre a questão concreta da Igreja Católica:
-Há uma grande maioria de portugueses que são católicos.
-Esses católicos pagam impostos.
-Esses católicos frequentam hospitais, prisões e forças armadas.
-Segundo a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a expressão pública da religiosidade é um direito
Assim, qual seria o motivo pelo qual o estado não pode colaborar com a Igreja Católica, permitindo que os católicos portugueses tenham assistência religiosa quando acedem a esses serviços públicos?
A AAP pretenda que a justificação seja: "esses serviços são religiosos". Mas, felizmente, o estado é laico e religiosamente neutro: não pode considerar a característica "religioso" como motivo de discriminação legal!

O Estado devia declarar-se incompetente em matéria religiosa e observar uma absoluta neutralidade em questões de fé.
É isso que hoje em dia se verifica. A AAP é que pretende que o Estado acabe com a neutralidade e assuma que a religião nunca pode estar associada e colaborar com o Estado. Tenha-se em atenção que o Estado pode legalmente associar-se e colaborar com entidades civis não oficiais. Teria de ser diferente com organizações religiosas, porquê?

É, aliás, a isso que o obriga a Constituição da República Portuguesa. Falta, todavia, pudor republicano aos seus mais altos dignitários.
É óbvio que a CPR não obriga os portugueses a viverem de acordo com o ateísmo de estado que a AAP gostaria de impor em Portugal. Se falta ou não pudor aos dignatários da constituição, e se este teria de ser "republicano", é opinião dos membros da Associação Ateísta Portugesa que, embora o queiram fazer, não compromete os ateus portuguesas que sejam, por exemplo monárquicos ou, mesmo que não o sejam, não apreciem particularmente a imbecilidade de de ver os "pudores" ou as "éticas" adjectivados como ateus, republicanos, etc..

O facto de haver milhares de pessoas que dizem acreditar num Deus, não é em si mesmo sinal do fracasso da ciência?

Mesmo que acreditem não há diferença entre a maioria que hoje crê em Deus e a totalidade que acreditava que o Sol girava à volta da Terra. Não é por acaso que Lutero dizia: «Quem quiser ser cristão tem de arrancar os olhos à sua própria razão».
Mais uma pergunta estúpida. Mesmo que a ciência tivesse provado que Deus não existe, o facto da maioria acreditar que Deus existe, não tornaria fracassada a ciência, porque o método de validar conclusões científicas não se dá por ad populum.
Carlos Esperança, com alguma liberdade poética, disse isso mas aproveitando a pergunta enviesada para deixar implítico como verdadeiro, por omissão, o disparate de que o ateísmo é conclusão científica.

Sentem que ser-se ateu, nos dias de hoje, provoca algum constrangimento social?

Sinto que a negação de Deus é a mãe de todas as negações provocando um ódio fanático nos que não se contentam em cuidar da própria «alma» e querem igialmente obrigar os que não crêem a «salvar» a sua. Como Bertrand Russell, estou tão firmemente convencido da nocividade das religiões como estou da sua falsidade.
Como é óbvio, não comento "sentimentos" e auto-ajuda para ateus sobre a negação de Deus ser a mãe de alguma coisa.
Mas não posso deixar de realçar a contradição de Esperança, um homem que ao longo desta entrevista mais não fez do que promover ódio fanático à religião e mostrar-se interessado e crente no ateísmo como salvador da humanidade, e que a termina queixando-se de perseguição e de alguém o querer salvar.
Que está firmemente convencido da falsidade das religiões, não disputo; mas é patético um naturalista materialista achar que uma construção social que esteve sempre presente em qualquer civilização, é nociva para a humanidade. Tal como Russel, os membros da AAP, nesta entrevista representados por Carlos Esperança, acham-se tão geniais a altruístas que conseguem determinar, em termos absolutos, qual o caminho para a humanidade. Na verdade não são ateus, são deuses...

1 comentários:

  1. O facto de haver milhares de pessoas que dizem acreditar num Deus, não é em si mesmo sinal do fracasso da ciência?


    Que pergunta tão idiota.

    Será que não foi o próprio Carlos quem escreveu estas perguntas a ele mesmo?

    hmmmm... Fica o "mistério".

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