Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

Neo-Ateísmo tuga embirra com a Cruz

Originalmente publicado no blogue "Paio com Ervilhas", em Junho de 2010. Versão revista e aumentada:

«A colocação de crucifixos nas salas de aulas das escolas do país, “acabou por ser espontânea e por ser sempre um pouco ao nível da decisão da comunidade local”». Assim falou D. José Policarpo, em entrevista ao Público.
A isto chamou Ricardo Alves faltar à verdade. Segundo este brilhante defensor da liberdade religiosa, D. José não deve ignorar que está a apelidar de «espontâneo» um acto decidido por uma lei de...1936!
Fernanda Câncio concordou com o camarada Alves. Escreveu que o Cardeal de Lisboa "não pode ignorar que a colocação de crucifixos em todas as escolas públicas foi decretada por salazar em 1936. muitas das escolas -- sem dúvida a maioria -- que ainda ostentam crucifixos têm-nos como consequência desse decreto."

Quer dizer então que, em 2010, "sem dúvida a maioria" das escolas que têm crucifixos nas paredes, têm-nos por imposição de uma lei feita há setenta e quatro (74!) anos. Durante estes setenta e quatro( 74!!) anos, as paredes de algumas escolas mantiveram crucifixos para não desrespeitar Salazar que os impunha a todas. Como explicar tão estranho fenómeno? É fácil:

-De 1936 até 2010, a lei não foi alterada.
-De 1936 até 2010, os directores das escolas e pais dos alunos foram sempre os mesmos.
-De 1936 até 2010, nenhum dos crucifixos foi limpo, retirado para manutenção e voltado ao lugar por "espontânea" vontade de quem manda e/ou é pai dos que utilizam a escola.

Provavelmente as tintas do período do Estado Novo também eram de uma qualidade extraordinária e nenhuma parede escolar teve necessidade de levar uma demão que fosse durante setenta e quatro (74!!!) anos. E os crucifixos mantiveram-se por lá, intocáveis. Ao contrário do que D. José Policarpo afirma, uma escola que em 2010 tenha crucifixos nas paredes, e é das escolas de 2010 que os furiosos neo-ateístas os querem retirar, não os tem por decisão das comunidades locais, sobretudo se, imagine-se, a escola tiver sido construída depois do 25 de Abril. O que sabemos ser impossível, porque, entre 1974 e 2010 também não se construiu nenhuma escola. E arrisco a dizer que nem todas as escolas continuaram com crucifixos nas paredes, não por causa de algumas comunidades terem decidido livremente retirá-los e outras mantê-los, mas porque...sei lá. Mas só pode ter a ver com o Salazar, afinal, ele mandou colocá-las em todas.

O tema dos crucifixos é muito simples: o estado é neutro em matéria religiosa, logo, não obriga os edifícios públicos a terem crucifixos nas paredes e não proibe os edifícios públicos de terem crucifixos nas paredes. Colocar crucifixos nas paredes de edífícios públicos, é tão legítimo como colocar qualquer outro objecto decorativo não obsceno nem ofensivo.
A cruz cristã é um símbolo português, oficial e tradicional. A sua simples presença não ameaça ninguém (a não ser quer a quem tem chifres de bode, diz o povo...) nem são conhecidos relatos de conjuntivite, cegueira, urticária, alergia ou qualquer outra maleita, como resultado directo da exposição a dois segmentos de recta sobrepostos e afixados numa parede ( só pode ser esta a perspectiva do anti-cristão ortodoxo quando olha para um crucifixo).

Sabemos que o portador de anti-religiosidade crónica é dado a estas superstições, como embirrar com pedaços de madeira. Pode-se compreender, ter simpatia pela condição e dar um desconto. Só não venham os neo-ateístas para o meio da praça, com interpretações jurídico-vinícolas sobre a lei fundamental do país em termos de laicidade e neutralidade religiosa, querendo convencer as pessoas honestas de que o estado também tem a função constitucional da decoração de interiores. É patético.

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