Sábado, 4 de Setembro de 2010

Objectivos da AAP

Análise dos objectivos da Associação Ateísta Portugesa


Fazer conhecer o ateísmo como mundividência ética, filosófica e socialmente válida
Ou seja, "Deus não existe" como fundamento ético e filosófico. Como é possível fundamentar ética e filosofia numa inexistência?!
Quanto a dar a conhecer ao mundo o ateísmo como socialmente válido, não percebo o que isso quererá dizer, a não ser que estes ateus andassem a receber poucos convites para bailes, saraus e sessões de chá, e por isso decidiram criar uma associação para chamar a atenção para o seu ostracismo social.

A representação dos legítimos interesses dos ateus, agnósticos e outras pessoas sem religião no exercício da cidadania democrática
O ateu responde à questão "Existe Deus?" com um "Não".
O agnóstico pode ser crente em Deus, pois agnosticismo não é um meio termo entre ateu e crente, mas uma posição em relação à possibilidade de provar o conhecimento, de algo específico ou geral.
Pessoas sem religião, também podem acreditar em Deus.
Perante isto, como pode a associação ATEÍSTA portuguesa achar-se digna representante dos "intereses" dos que têm tão diferentes e não relacionadas opiniões? Não pode, é absurdo.
Isto é o mesmo que a associação de vinicultores portugueses, dizer-se representante legítima dos interesses de vinicultores, carteiros e outras pessoas sem clube de futebol.
Quanto ao exercício da cidadania democrática, está definido pela lei e para o efeito não se considera a religião, agnosticismo ou ateísmo dos cidadãos. Quem afirmar o contrário, mente!

A promoção e a defesa da laicidade do Estado e da igualdade de todos os cidadãos independentemente da sua crença ou ausência de crença no sobrenatural.
Nem a Constituição da Républica Portuguesa, nem qualquer outra lei, distinguem cidadãos em função da crença ou descrença no sobrenatural. Quem está a fazer uma distinção arbitrária e ilegítima é a AAP, ao pretender representar interesses dos ateus, como se houvessem interesses comuns entre indivíduos, apenas por concordarem que "Não" é a resposta correcta ao problema filosófico da existência de divino. E pior, acham que "ateísta" também serve para agrupar em torno dos mesmos interesses agnósticos e não religiosos. Numa sociedade pacífica e onde crentes e não crentes convivem em paz e respeito, eis que chegou a AAP para tentar dividir os cidadãos e respectivos interesses em função das crenças que tenham em relação ao divino.
Em relação à defesa da laicidade, o conceito de laicidade da AAP, como teremos oportunidade de ver ao longo deste blogue, é o ateísmo de estado. Para estes activistas, a religião nunca pode colaborar com o estado, num claro desrespeito pelo seguinte princípio da neutralidade:

a) a religião, por ser religião, não implica necessariamente que as suas posições sejam as do estado.

b) a religião, por ser religião, não está necessariamente impedida de participar no jogo democrático da discussão de leis nem de colaborar com o estado.

Mas o engraçado é que para alguém ser ateu, não tem de defender nenhuma noção de laicidade, nem a democrática que vigora, nem a totalitária desejada pela AAP. Para ser ateu, basta não acreditar na existência de divindades/acreditar que divindades não existem. Um ateu até pode ter uma visão maquiavélica ( literalmente) da realidade política, considerando por exemplo que uma teocracia é melhor sistema para os seus interesses, e continua ateu enquanto não acreditar na existência de divindades. Todos os objectivos desta associação cometem a falácia do verdadeiro escocês:

A- Nenhum escocês põe açúcar na papa de aveia.
B- Mas a meu tio Angus, que é escocês, gosta de açúcar na papa de aveia.
A-Ah, sim, mas nenhum escocês VERDADEIRO põe açúcar na papa de aveia.

Por se ter chamado "ateísta" à associação, todos os seus objectivos e princípios pretendem ser as verdadeiras posições decorrentes do ateísmo, o que é obviamente uma burla. É muito importante chamar a atenção para este ponto, pois algumas pessoas que discordam destes tipos têm a tendência de aceitar que eles estão mesmo a defender posições ateístas e responsabilizam publicamente quem não tem na verdade coisa alguma a ver com o que eles dizem, tornando alvo das suas críticas ou indignação "os ateus".

A despreconceitualização do ateísmo na legislação e nos órgãos de comunicação social
Se há essa necessidade, não bastava terem enviado às redações mensagens onde se lesse: "Ateu, aquele que não acredita na existência de divindades/Crê que divindades não existem"?
Não vejo a necessidade de criar uma associação para o efeito, para além de que não existe nenhuma lei sobre ateus ou ateísmo, o que demonstra ser falso existirem preconceitos legais em relação aos referidos.

Responder às manifestações religiosas e pseudo-científicas com uma abordagem científica, racionalista e humanista.
Isto confirma o que já tinhamos apurado: é mesmo um logro chamar "ateísta" à associação. Ser ateu não implica querer responder a manifestações religiosas, inclui-las na categoria "pseudo-científica", muito menos ser adepto do racionalismo ou humanismo. Aliás, mal seria se o disparate de considerar que a religião é "pseudo-científica", quando religião não pretende sequer ser ciência, fosse comum aos ateus, ou decorrente do ateísmo. Ainda por cima, responder a manifestações religiosas com abordagem científica, faz tanto sentido como responder a ciência com abordagem artística.

Conclusão

A Associação Ateísta Portuguesa pretende fundamentar ética e filosofia em inexistência; representar quem não tem, por definição, interesses comuns aos seus membros ( a começar pelos ateus); tornar iguais todos os cidadãos, paradoxalmente distinguindo-os pelas crenças que tenham; lutar pelo conceito de estado laico dos membros da associação, como se este decorresse do ateísmo; acabar com preconceitos legais que não existem; e responder à religião com ciência, o que envergonha qualquer cientista com noções básicas de epistemologia.


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A Associação Ateísta Portuguesa propõe-se e constituem seus objectivos

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