When people stop believing in God, they don't believe in nothing - they believe in anything. Frase atribuída a G. K. Chesterton
Ricardo Silvestre publicou Santidades à vista:
"Um exemplo que os crentes gostam de usar contra os ateístas é que um país como a Coreia do Norte é um exemplo de um estado ateísta. Quem ler um pouco que seja, ou acompanhar as notícias com um pouco de atenção, sabe perfeitamente que este argumento é ridículo."
O líder máximo do Portal Ateu continua sem saber o que é um argumento. O regime norte-coreano é oficialmente ateu, não por "argumentação", mas pelo facto chamado "
constituição norte-coreana". Do prefácio:
"The Democratic People's Republic of Korea is a socialist fatherland of Juche which embodies the idea of and guidance by the great leader Comrade Kim Il Sung."
Toda esta parte se resume a elogiar a obra do camarada ( e não do "deus) Kim Il Sung e o legado que ele (supostamente) deixou: um guia para alcançar prosperidade material para o povo.
O presidente falecido é considerado eterno, não por questão religiosa, mas por legado político. Um estado que tem como política oficial uma filosofia ateísta ( juche é uma versão do marxismo-leninismo) e como inspirador máximo um ateu; só pode ser considerado um estado oficialmente ateu.
Nesta vida já se matou e castigou por tudo, provavelmente até por disputas de porta-chaves ou discussões sobre a melhor cantiga do Marco Paulo. Mas segundo os ateus fanáticos, matou-se e castigou-se por tudo menos pelo ateísmo. Se alguém era ateu, via o ateísmo como caminho para a criação do homem novo, de um mundo próspero e matou milhões de inimigos e traidores desse ideal bondoso; não pode, não foi, é impossível, jamais, que a motivação desses crimes tenha sido o
ateísmo. Os ateus sérios e honestos, terão certamente dificuldade em perceber como pode uma filosofia ou crença humana ser imune a causar tragédia e sofrimento. Já o dogma neo-ateísta "
se um ateu faz coisas feias, nunca é por causa do ateísmo", trata-se de uma conclusão à medida exacta da
falácia do verdadeiro escocês. No caso de Ricardo Silvestre, ele tentou negar que o regime norte-coreano é um exemplo de um estado ateu, e o tiro saiu-lhe pela culatra:
"Não só o “líder da nação” é Kim Il Sung, que morreu em 8 de Junho de 1994, como o seu filho, Kim Jong Il é a “reencarnação” do pai. Kim Il Sung, “o querido líder”, é considerado como um deus pelos norte-coreanos e no mausoléu onde está sepultado, tem empregadas que choram 24 horas por dia."
A treta da "reencarnação" não cola, a não ser que o regime norte-coreano tenha a doutrina oficial de que Kim Jong Il nasceu depois do seu pai morrer, com a "alma" ou "espírito" deste. Nunca ouvi dizer que os norte-coreanos defendem que o seu actual líder tem apenas 16 anos, e ele aparenta ter muito mais. O povo norte-coreano até podia considerar a batata uma divindade. A constituição norte-coreana trata o fundador da república como "camarada". E a questão que Silvestre começou por levantar foi sobre o "estado" e não sobre o povo. De resto, manter um cadáver rodeado de carpideiras, em momento algum prova que regime norte-coreano não é oficialmente ateu. Prosseguindo:
"Não admira pois que o ministro da defesa da Coreia do Norte, Kim Yong Chun, ameaçou a Coreia do Sul de… uma ““guerra santa“.Lendo a notícia vemos que não é uma guerra santa no sentido de ser tida como legitimada ou ordenada por uma divindade, muito menos em nome da defesa de qualquer valor divino transcendente. A ameaça é de uma guerra santa de "justiça", uma palavra bastante invocada por qualquer comunista. Se os comunistas norte-coreanos deixam de ser ateus por se sentirem legitimados a agir por um propósito de bem-comum material, progresso e paz para toda a humanidade; em nome de uma justiça inevitável, "santa"; o presidente dos ateus portugueses portalados também não poderia ser considerado ateu, pois teoriza exactamente o mesmo. Demonstrarei isso à frente.
"Por exemplo, podemos ver pelas estatísticas da Religious Intelligence, 64% da população “não tem religião, mas são adeptos da filosofia Juche” (o resto da percentagem distribui-se por 16% da população – Xamanismo coreano; 13,5% da população- Chondoismo; 4.5% da população – Budismo e Cristianismo 1,69% da população)."
Ou seja, o regime norte-coreano, oficialmente ateu, já conseguiu usar o estado como veículo de secularização da sociedade. O que é, precisamente, o sonho dos neo-ateístas:
-A religião é má, a sociedade só avançará quando a religião deixar de ter a influência que tem. O estado deve tomar posição de acordo com estes dois princípios, limitando a manifestação religiosa ao domínio meramente privado mas onde a própria educação religiosa das crianças deve ser controlada pelo estado. O estado define oficialmente o que é política, e a religião é que tem o dever de neutralidade em relação à política definida pelo estado como oficial ( estado ateu). Não é o estado que tem o dever de neutralidade em relação à religião ( estado laico).
É esta prática levada a cabo pelos ateus comunistas da Coreia do Norte. É esta a teoria promovida como prioritária e esencial pelos neo-ateístas ocidentais. Mas acabando com a influência da religião tradicional na sociedade, qual será a cosmovisão alternativa? Necessariamente, terá de haver alguma. Quanto à Coreia do Norte, Ricardo Silvestre admira-se que o estado oficialmente ateu tenha adoptado a filosofia Juche:
"Mas o que é a filosofia Juche? É o “kimilsonguismo”, a ideologia oficial de Estado do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte. Ou seja, é o culto da personalidade, de um “querido líder” que é um deus, com reencarnações e guerras santas. Só quem não quer, é que não vê a evidência."
Vamos às evidências. Como demonstrei, "deus", reencarnações" e "guerras santas" são jogos de palavras do Silvestre. Culto da personalidade não é incompatível com ateísmo. Ideologia oficial de estado também não. A filosofia Juche é basicamente o marxismo-leninismo em coreano. E marxismo-leninismo, é filosofia ateísta. Aqui, ou na Coreia. Vê~se que Silvestre consultou a wikipedia. Mas faltou-lhe citar
isto:
"Alguns sociólogos e estudiosos consideram o Juche como um movimento religioso. Na Coreia do Norte essa ideia é rechaçada, e considera-se que o Juche é um movimento secular, e que se concentra nos problemas da vida (não no que ocorre após a morte)."Sugiro uma experiência: digam a qualquer neo-ateu que ele vê o ateísmo como religião (política), e depois contem-me se algum não rechaçou a ideia invocando que a associação ateísta de que faz parte é um "movimento secular, que se concentra nos problemas da vida ( não no que ocorre após a morte)", ou coisa parecida.
Procurando diferenças entre o ateísmo oficial norte-coreano ( o Juche) e o ateísmo de Ricardo Silvestre ( o Neo-Ateísmo), concluiremos que nenhum adepto de uma filosofia ateísta está imune a acreditar em coisas incríveis e bizarras. Começando pelo nível em que o Silvestre coloca divergências pessoais suas com religiosos, ele tem-se como conhecedor do futuro e absolutamente certo na sua crença de que o ateísmo é o melhor para toda a humanidade, não pela realidade dos factos ou argumentos que apresenta, mas por ilusão do seu desejo como inevitabilidade histórica. Por isso, diz ao inimigo ( religiosos) coisas
destas:
"Vocês estão condenados ao esquecimento. A serem uma nota na margem da história humana, que se há-de libertar da superstição e da ignorância, assim como um corpo se livra de um parasita."
Um comunista dirigindo-se a um "reaccionário, não diria nem mais, nem menos. Silvestre e os ateus norte-coreanos são crentes em ideais utópicos, ateus, como factos histórico-teleológicos. Este tipo de frase, remetendo humanos para a categoria de parasitas da humanidade, sub-humanos portanto, e a humanidade como um todo para um sentido histórico dado como inevitável e garantido, espelha a crença que está por detrás de todos os genocídios revolucionários do século XX.
O ateísmo não tem nada a ver com isto? Bem, é em nome de um mundo melhor que Ricardo Silvestre, ou qualquer outro revolucionário neo-ateísta, milita pelo ateísmo e noção do homem como medida de todas as coisas. Por exemplo, ele diz ser do interesse, não apenas seu ou do seu grupo, mas de toda a humanidade, eleger ateus como governantes. Os excertos abaixo encontram-se no texto deste blogue
Portal Ateu e a Humanidade:
"Fantástico! É excelente que cada vez temos mais destes casos, e quantos mais tivermos, melhor para a sociedade e para a Humanidade."
E em nome do ateísmo por um mundo melhor, que se lixe o estado laico, a democracia, a liberdade pensamento e de expressão:
"E agora! Devemos fazer a crença religiosa regredir para a área privada e afastar a religião do governo, das leis, do funcionamento da sociedade."
Eu não teria nada a apontar se um ateu fizesse do ateísmo uma questão política, se assumisse estar a agir em nome dos seus interesses particulares, familiares ou de grupo. No entanto, o fanático ateu militante promove-se como altruísta e bondoso lutador pelos interesses da humanidade inteirinha:
"A PAMAP foi seleccionada para pertencer à Direcção da Atheist Alliance International.Teremos responsabilidades a nível nacional, europeu e até mundial.Estamos nisto para darmos o nosso melhor e ajudar a causa: o avanço do racionalismo,secularimo e dos Direitos básicos da Humanidade."
Temos assim a prova de que o ateu fanático, não acreditanto em deuses, diabo, anjos ou almas, acredita em algo muito mais incrível: na sua própria bondade e sabedoria do que é melhor para toda a humanidade, na qual se incluem os religiosos tidos como inimigos desse futuro maravilhoso e inevitável. Precisamente a maneira de pensar de qualquer ditador comunista.
Tal como os comunistas coreanos, o neo-ateísta Ricardo Silvestre adora a teoria de um "objectivo comum" para toda a humanidade:
"Uma das coisas mais importantes é termos (a Humanidade) um objectivo comum. Uma das tarefas da ciência é ajudar é entender como contribuir para esse objectivo comum com o mínimo possível de fricção, sem divisões sectárias. A ciência é a maior força para remover barreiras de desentendimento."
O excerto que Silvestre considerou "brilhante" é da autoria de Sam Harris, um dos deuses "Kim Sung Il" silvestrianos. Como vemos, não acreditar em Deus não o impede de agir como se fosse um. Ele pensa saber que toda a humanidade tem de ter um objectivo comum, e endeusa a ciência como uma "força" para esse fim utópico. O conhecimento ou a tecnologia, que tanto servem para matar a fome como para construir bombas, moralmente neutros, são endeusados pelo ateísmo político como "força" inevitavelmente favorável à humanidade. Toda ela!
Não há maneira de fugir disto: um ateu que acredita saber o que é melhor para a toda a humanidade, inevitavelmente acabará a falar como se fosse profeta e a vender ilusões materialistas de paz e progresso. A diferença entre o regime oficialmente ateu da Coreia do Norte e o movimento neo-ateísta não são superstições e crenças irracionais. Nisso, ambos são patéticos e irmãos gémeos filhos da mesma mãe: a fé no homem. A diferença é apenas circunstancial: o movimento neo-ateísta ocidental não tem o poder que o regime norte-coreano tem. É este pequeno pormenor que faz a fé no homem ser apenas ridícula, ou ridícula e tirana.
Se têm dúvidas, imaginem que, por qualquer azar dos diabos, Ricardo Silvestre tornava-se governante de um país, na posse da sua convicção tolinha de que sabe qual o sentido da história, aquilo que interessa à humanidade e quem são os inimigos do futuro radioso que ele dá como inevitável. Estamos perante um Kim Sung Il em versão portuguesa. Sim, é praticamente anónimo, inofensivo e até nos diverte bastante com a mediocridade intelectual das suas propostas políticas. Só por uma razão: felizmente, não tem qualquer poder.
Conclusão
O povo norte-coreano é oprimido por um bando de mafiosos que impõe uma filosofia ateísta e materialista como sendo do interesse de toda a sociedade. Para uma filosofia ateísta e materialista ser realmente do interesse e o melhor para todos, implicaria que os ideólogos e executores dessa filosofia política fossem realmente bondosos altruístas interessados no bem-estar de todos. É isto que é imposto por qualquer estado ateu como verdade única: quem manda é bom. Exactamente a mesma proposta dos líderes e gurus neo-ateístas do ocidente. Não há Bem Absoluto, mas nós, os associados pela inexistência de Deus, sabemos o que seria melhor para todos, porque somos bons. É a isto que se resume qualquer proposta revolucionária ateísta.