Li esta "parábola" da autoria do "filósofo" Lúcio Mateus. Trata-se de uma história cuja acção decorre no futuro e na qual todas as questões filosóficas estão resolvidas (!). A personagem principal, Lúcio Johansson Jr. , aborrecido por não ter problemas nem questões para resolver, cria um mundo virtual, a partir de um computador, assumindo-se como o "deus" de umas entidades designadas como "fulanos". A ideia do texto é fazer uma comparação entre a personagem e Deus. A comparação falha totalmente.
O texto é uma ridicularização baseada na ignorância do Lúcio Mateus sobre o que significa o conceito de Deus e, também, sobre o Cristianismo. Podemos mostrar isto respondendo à pergunta final do texto, à qual o Lúcio Mateus dá um tom retórico, como se a sua história infantil realmente apresentasse algum problema filosófico a quem acreditasse em Deus. A pergunta é:
«Lúcio Johansson Jr. é o equivalente do seu conceito de Deus (mutatis mutandis), ou não?»
Eu respondo de maneira muito simples: não.
O Lúcio Mateus coloca então uma terrível condição:
«Se disser que sim, então Deus não é perfeito e, logo, não existe.»
Exacto, se Deus fosse comparável ao imperfeito Lúcio Johansson Jr, não poderia ser real. A personagem Lúcio Johansson Jr, entre outras coisas, define-se pela sua imperfeição. Eis a outra conclusão do Lúcio Mateus:
«Se disser que não, como pode justificar essa resposta sem recorrer a noções de “perfeição”, “necessidade”, “bondade”, e “omnisciência” que um fulano poderia usar com igual propriedade para designar Lúcio Johansson Jr.? »
Existem muitos motivos para tais noções servirem para designar Deus, mas não a personagem Lúcio Johansson Jr. Vou dar apenas quatro:
1
A personagem Lúcio Johansson Jr. é definida como contingente. É descendente de uma linhagem iniciada por um relacionamento sexual entre um tipo chamado Lúcio Mateus e uma senhora chamada Scarlett Johansson.
Deus é definido como não-criado e causa primeira de todas as coisas que tiveram um início.[Ver, por exemplo, a noção de movimento segundo Aristóteles]
2
A personagem Lúcio Johansson Jr. cria um mundo virtual a partir de um computador, logo está limitada no tempo e no espaço.O universo no qual nós vivemos, segundo o argumento cosmológico, necessariamente teve uma causa anterior ao tempo e ao espaço. A essa causa chamamos Deus.
3
Os fulanos da história do Lúcio Mateus viam a personagem principal como perfeita, necessária, bondosa e omnisciente porque esta era mais poderosa do que eles. Não se trata realmente de omnisciência, necessidade, perfeição e bondade divinas, no sentido tradicional, clássico e lógico dos termos, que é aquele que deve estar em discussão, se formos intelectualmente honestos. Por exemplo, o argumento ontológico defende que o maior ser (em grau e termo absoluto), necessariamente existe. Não defende que Deus é um ser finito e relativamente mais poderoso do que seres virtuais por si inventados...
4
A personagem Lúcio Johansson Jr, determinou o autor, cria sofrimento para as suas criaturas virtuais (tempestades, furacões, etc) e tem prazer quando as vê no inferno. Dizer que um ser assim seria bondoso, não faz sentido. Talvez o Lúcio Mateus conheça alguma religião que adore um "Deus" com esse tipo de bondade. Não é, seguramente, o caso do Cristianismo, na qual Deus é adorado como o criador daquilo que existe, e não como criador do mal. Citando Santo Agostinho:
« todas as coisas que se corrompem são boas: não se poderiam corromper se fossem sumamente boas, nem se poderiam corromper se não fossem boas. Com efeito, se fossem absolutamente boas, seriam incorruptíveis, e se não tivessem nenhum bem, nada haveria nelas que se corrompesse. De facto, a corrupção é nociva, e se não diminuísse o bem, não seria nociva. Portanto, ou a corrupção nada prejudica - o que não é aceitável - ou todas as coisas que se corrompem são privadas de algum bem. Isto não admite dúvida. Se, porém, fossem privadas de todo o bem, deixariam inteiramente de existir. Se existissem e já não pudessem ser alteradas, seriam melhores porque permaneciam incorruptíveis. Que maior monstruosidade do que afirmar que as coisas se tornariam melhores com perder todo o bem? Por isso, se são privadas de todo o bem, deixarão totalmente de existir. Logo, enquanto existem são boas. Assim sendo, todas as coisas que existem são boas e aquele mal que eu procurava não é uma substância, pois se fosse substância seria um bem. Na verdade, ou seria substância incorruptível, e então era certamente um grande bem, ou seria substância corruptível, e nesse caso, se não fosse boa, não se poderia corromper.» Confissões
Conclusão: o Lúcio Mateus usa o mesmo tipo de ilusionismo verbal demascarado no video abaixo. Tal como Lewis Wolpert, o nosso caro "filósofo" imagina que os atributos divinos podem designar com igual propriedade qualquer entidade. O ateísmo militante é um hino à ignorância.
Velho, me indica uns livros. Tenho procurado ler sobre apologética.
ResponderEliminarSe me quiser dar um mail, eu envio-lhe alguns em PDF.
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