Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

João Vasco Gama e o Sobrenatural


Nos comentários, comecei por lhe pedir:

« João Vasco, podes definir naturalismo, por favor? Obrigado.»

O João foi espreitar a wikipedia e respondeu que é no sentido dessa definição que usa o termo:
«Naturalism commonly refers to the philosophical belief that the natural universe is a closed system and that only natural laws and forces (as opposed to supernatural ones) operate in the universe, and that either nothing exists beyond the natural universe or, if it does, it does not affect the natural universe. Followers of naturalism (naturalists) assert that natural laws are the rules that govern the structure and behavior of the natural universe, that the universe is a product of these laws and that the goal of science is to discover and publish them systematically.»
« Não existe «or, if it does, it does not affect the natural universe.».

Eu sei que é isto que consta na definição da wikipedia que ele foi espreitar. Mas não foi isso que eu lhe pedi. Uma coisa é a crença de que nada existe para além do universo natural, outra é a crença de que o natural não pode ser afectado pelo sobrenatural que eventualmente possa existir. Afirmar a segunda como forma de fugir ao argumento que sustente a afirmação da primeira, nos dois casos, não é argumento.

«Porque se afectasse o Universo natural, então estaria no domínio daquilo que as ciências podem estudar, e seria considerado «natural».

Esta afirmação também não é um argumento que demonstre que um efeito natural não pode ter uma causa sobrenatural. O João Vasco apenas dá como certo que tudo o que afecta o universo natural, é do domínio das ciências, logo "natural". Ou seja, petição de princípio. Sem qualquer argumento.

«Um exemplo: imaginemos um universo onde a «Dança da Chuva» funciona. O facto de funcionar implicaria que isso poderia ser observado empiricamente, e estudado. Poderia ser possível saber-se quais os melhores passos, quais as melhores ofertas, qual a disposição e quais os pensamentos ideais para iniciar o ritual.»

 Este  exemplo do João Vasco é um espantalho. Não serve como argumento, nem para demonstrar que nada existe para além do universo natural, nem para demonstrar que o natural não pode ser efeito ou afectado pelo sobrenatural. Imaginar um mundo onde a "Dança da Chuva" funciona não é imaginar um mundo onde o sobrenatural (algo para além do universo natural) existe A "Dança da Chuva" é própria de culturas animistas, as quais não distinguem natural de sobrenatural. Logo, a "Dança da Chuva" não é uma crença ou ritual com pretensão de apelo sobrenatural.

«Podem existir fenómenos completamente fora daquilo que é observável directa ou indirectamente, e portanto da nossa capacidade de compreensão. Mas, precisamente por essa razão, nenhuma alegação sobre os mesmos pode ser devidamente sustentada, pelo que não passa de uma especulação sem qualquer valor.»

O João Vasco está a definir sobrenatural como aquilo que chamamos ao que não é observável directa ou indirectamente e está fora da nossa capacidade de compreensão. Mas o sobrenatural não se define necessariamente como aquilo que está para além da capacidade de compreensão humana. 
« A partir da criação, isto é, do mundo e da pessoa humana, o homem pode, só pela razão, conhecer com certeza a Deus como origem e fim do universo e como sumo bem, verdade e beleza infinita.»  
Catecismo da Igreja Católica.
[Por exemplo, a partir do universo constatado como iniciado,  finito, físico, mutável e contingente; temos argumentos lógicos para defender que, para além e verificado o universo natural, também existe o não-criado, infinito, metafísico, imutável e necessário.]

 «Uma vez que podem existir infinitas especulações incompatíveis igualmente (mal) fundamentadas, quem rejeita uma alegação deste tipo terá uma probabilidade muito maior de ter uma crença que corresponde à verdade do que quem a aceita.»

Não apresentei à avaliação do João Vasco uma "especulação incompatível e mal fundamentada" para ele fingir que está a rejeitar isso. Eu pedi-lhe um argumento para ele fundamentar a sua crença naturalista. Ele  refugiou-se dizendo que se existir, o sobrenatural não afecta o mundo natural. É o "foge e afirma". Não argumenta, nem demonstra que a crença naturalista tenha uma probabilidade maior de corresponder à verdade.

« Pela mesma razão que se justifica acreditar que a terra não é plana (uma probabilidade muito superior de tal crença corresponder à realidade) justifica-se rejeitar qualquer alegação deste tipo em particular.»

Eu também posso dizer ao treinador do Sporting: "justifica-se acreditar que o Jairo marcará muitos golos se o clube o contratar; pela mesma razão que se justifica acreditar que a terra não é plana".  Infelizmente, acho que isto não seria motivo suficiente para o mister Domingos conceder ao meu talento futebolístico uma oportunidade na frente do ataque leonino...

Reforçar uma petição de princípio com uma comparação sem nexo, continua a ser petição de princípio.

« Outro exemplo: se ir a Fátima queimar velas, pagar promessas e rezar alterasse a probabilidade de sobreviver a um Cancro, esse seria um mistério do domínio da medicina, um mistério a investigar devidamente até existir uma maior compreensão sobre o fenómeno.»

Tomando esta afirmação como verdadeira, ainda assim ela não seria um argumento válido para concluir que o naturalismo é verdadeiro. Se o João Vasco estivesse certo quando diz que eventuais curas específicas em Fátima não seriam  sobrenaturais, mas apenas um mistério do "domínio da medicina"; isso não levaria à conclusão genérica de que nada existe para além do sobrenatural. Ou, na versão mais soft, mas igualmente genérica, de que o sobrenatural não pode, de todo, afectar o mundo natural.

Dito isto, a afirmação é falsa.

Primeiro, porque sendo os cancros dessas pessoas curados, não teríamos uma alteração da probabilidade de sobrevivência, mas casos reais de cura que iriam contra as probabilidades de sobrevivência ao cancro.

Não sendo o fenómeno de Fátima, como o da "Dança das Chuvas",  um caso de animismo; este não pode ser comparado a um ritual assente numa crença imanente. Portanto, é falsa a ideia de que o fenómeno de Fátima, a estar relacionado com curas de cancros, seria do domínio científico e um "mistério" apenas até que uma investigação científica o explicasse.  Se o fenómeno dos cultos em Fátima, baseados numa pretensão e expectativa relacionada com o sobrenatural, estiver relacionados com curas de cancro, então deve-se concluir que essas curas têm origem sobrenatural. 

A ideia de que devemos recusar sempre atribuir origem sobrenatural a uma cura inexplicável e improvável, e que aconteceu depois de um apelo ao sobrenatural; porque se deve antes esperar que um dia a cura seja explicado pela medicina; é uma ideia baseada no pressuposto de que o sobrenatural não existe e/ou jamais pode ser a conclusão acertada. Mas o João Vasco não deu qualquer argumento para justificar essa crença.

Voltando à questão principal, o João Vasco foi incapaz de apresentar uma defesa válida da sua crença naturalista. Mantêm-se o mistério sobre as razões que o levam a dizer que a rejeição do naturalismo está geralmente associada a falta de espírito crítico.

Rematando,

A crença naturalista é maior demonstração da falta de espírito crítico que pode haver. Se não existe nada para além do universo natural, e/ou se nada no mundo natural é afectado por algo para além do sobrenatural; então a consciência humana é absolutamente dependente e um mero efeito subjectivo e ilusório da matéria cerebral. Nos seus próprios termos, o naturalismo, sendo crença própria e exclusiva de seres auto-conscientes, não pode ser verdadeiro.Porque não pode ser verdadeira a filosofia que se define a si mesma como mero e particular acidente da matéria, e simultaneamente pretende ser uma verdade objectiva e imparcial, universalmente válida.

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Nota:

É falsa esta acusação do João Vasco relativamente às alegações de milagres:

« alega-se que estamos no domínio do sobrenatural, e os cientistas devem ficar de fora. »


Tomando como exemplo os milagres validados pela Igreja Católica, toda a gente sabe que os cientistas não ficam de fora, mas são das primeiras autoridades consultadas.

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