Comentário ao texto "Ciência, metafísica e filosofia"
« Uma coisa que me dizem muitas vezes é que não posso exigir “provas científicas” para alegações que, apesar de serem acerca de factos, se rotulam de metafísicas ou filosóficas.»
Não sendo a realidade apenas física, exigir "provas científicas" sobre factos apresentados como metafísicos é mesmo um disparate.Uma contradição de termos, uma fuga ao que é apresentado e está em discussão.
« A ideia parece ser de que há jogos diferentes e, por simples troca de etiquetas, o que é claramente falso num passa a verdade indubitável no outro.»
Isto é um espantalho. Dizer que o metafísico não pode ser provado "cientificamente" não significa que o metafísico é falso para a ciência, e verdadeiro para a filosofia. A verdade não pode contradizer a verdade.
Dizer que há coisas que não podem ser descritas ou provadas empiricamente, necessariamente implica estar a dizer que essas coisas existem. Não que são falsas para a ciência, mas que saem do âmbito desta e entram no de outros métodos e fontes de conhecimento.
«Cientificamente, a hóstia fica na mesma. Metafisicamente, dá-se um milagre. Treta. »
Este é um bom exemplo. Se a doutrina católica defende que naquilo que pode ser descrito cientificamente, não existe ( necessariamente) alteração na hóstia; qual o motivo para o Krippahl concluir: "cientificamente" fica na mesma; então "é treta" ?
Ele só pode chegar a essa conclusão, se mostrar ser falso o conceito conforme é apresentado E não exigindo que este se torna naquilo que à partida já diz não ser.
Krippahl parece acreditar que se algo não pode ser demonstrado cientificamente, então é treta.
Esta ideia é errada. Para além de ser um apelo à ignorância, a própria ideia contradiz-se porque não é baseada em nenhuma demonstração científica. Pretende ser uma (péssima) definição metafísica de conhecimento.
« A filosofia procura a compreensão pelo raciocínio metódico e pelo diálogo racional e crítico. A ciência também, e aquilo que hoje chamamos ciência chamou-se, durante séculos, filosofia natural.»
Irrelevante. O problema é aquilo que o Ludwig Krippahl entende por ciência. E o que o Ludwig Krippahl entende por ciência é isto:
Ciência é o mesmo que Conhecimento, crença adequada à realidade / Só é Conhecimento o que pode ser testado e está justificado como a hipótese melhor fundamentada.
Demonstrações lógicas ou matemáticas são meramente formais, não conseguem provar como adequada à realidade nenhuma crença.
As demonstrações lógicas e matemáticas podem partir de princípios auto-evidentes e necessários (absolutos), logo, podem provar crenças como adequadas à realidade e não estão condenadas a ser meramente formais.
Se Krippahl define ciência como "o mesmo que conhecimento", conhecimento como "só o que pode ser testado" e lógica e matemática como não sendo conhecimento; significa que para ele a única fonte de conhecimento é o método experimental. Mas esta noção de conhecimento e ciência não resultou de nenhum teste de hipóteses. É só uma injustificada e auto-contraditória tentativa de vender uma epistemologia sem fundamento.
« Agora prevalece a ideia de que a ciência lida com o que é empírico e a filosofia lida apenas com o resto, como a ética e a metafísica. Mas esta ideia é errada.»
Ele, como professor universitário num curso público, limitou o conhecimento ao que pode ser testado, e disse que lógica e matemática não eram conhecimento. A ideia errada é a dele.
Não porque tenha limitado o que pode ser testado como empírico, mas porque foi mais longe e pretendeu que aquilo que pode ser testado fosse a única ciência e conhecimento possível.
Além de que o problema inicial que ele colocou agora neste texto foi outro. Está contra os que o criticam por « exigir “provas científicas” para alegações que, apesar de serem acerca de factos, se rotulam de metafísicas ou filosóficas.»
Ele tem é de demonstrar que seria acertado exigir "provas científicas" ( empíricas) do metafísico. Isso não se consegue dizendo que a ciência usa ferramentas metafísicas ( como vai dizer a seguir). Pelo facto da ciência, como método experimental, se basear em metafísica;: não se conclui o contrário. Que o metafísico pode ser experimentada em laboratório.
« Não há uma fronteira clara a partir da qual uma investigação filosófica passa a ser científica.»
No sentido em que ele entende ciência ( testes de hipóteses), existe mesmo uma fronteira entre investigação filosófica e científica.
« a relação de causalidade é metafísica. Empiricamente, a única coisa que se pode estabelecer é uma correlação.»
Isso não nos leva a concluir que induzir uma relação de causalidade seja o mesmo que "investigação filosófica"; ou que não haja fronteira clara entre investigação filosófica e investigação científica. Prova é que testar hipóteses, obter "provas", é só uma parte da investigação científica.
E, mais importante, o facto de induzirmos uma causalidade a partir de uma experiência científica, também não mostra ser acertado exigir "provas científicas" (empíricas) de alegações metafísicas. Isso continua a ser uma contradição de termos.
« Se a ciência fosse estritamente empírica estaria limitada a listas de observações do género “este aparelho indicou aquele valor”. E talvez nem isso.»
O professor de pensamento crítico está em contradição. Se "ciência" fosse tudo o que é conhecimento, e se apenas fosse conhecimento o que pode ser testado; como ele diz que é; aí é que a ciência seria do género "este aparelho indicou este valor".
O facto da ciência não ser estritamente empírica ( é baseada em metafísica), não demonstra ser acertado exigir "provas científicas" (empíricas) do que é alegado como metafísico. O exemplo da hóstia foi perfeito.
« O que não quer dizer que estes aspectos metafísicos do relato científico não sejam testáveis. »
Nesta parte ele deve ter-se lembrado de que, nas suas aulas, limitou o conhecimento ao que pode ser testado, e que isso entra em contradição com o reconhecimento ( tardio) que agora faz do conhecimento metafísico. Vai dar o dito pelo não dito...
« Não são directamente testáveis, porque a explicação e a causalidade, por si, não são nada que se possa observar. »
Se sabe que não se pode observar, então sabe que não podemos exigir "provas científicas" ( empíricas) dos "aspectos metafísicos". GAME OVER.
« Mas são indirectamente testáveis porque explicações e relações entre causa e efeito implicam restrições àquilo que se espera observar.»
Indirectamente testáveis como? Ele até diz que matemática e lógica não são fontes de conhecimento.
« Invocar a desculpa fácil de que certa alegação não carece do fundamento que deveria ter por ser metafísica ou filosófica assume serem desconexos estes aspectos da nossa compreensão que estão interligados. »
Ele alterou os termos da sua análise. Começou por dizer que há quem o critique por "exigir “provas científicas” para alegações que, apesar de serem acerca de factos, se rotulam de metafísicas ou filosóficas».
Agora muda para a dita "desculpa fácil de que certa alegação não carece do fundamento que deveria ter por ser metafísica."
Afinal, quem lhe disse o quê? Fala em duas coisas completamente diferentes. Já não sabe o que diz.
« Explicações, causalidade, relatos acerca do que a realidade é para além do que observamos, ou são um misto de filosófico, metafísico e científico ou não servem para nada.»
Se alguém negou que filosófico, metafísico e científico têm a ver com a realidade, foi ele. Quando escreveu que só é conhecimento aquilo que pode ser testado, e que a lógica e a matemática não são conhecimento. Agora mudou, e já chama "misto de filosófico, metafísico e científico" aos relatos sobre a realidade...
« E, ao contrário do que muitos parecem crer, os rótulos de “metafísico” ou “filosófico” não têm o poder mágico de tornar disparates em verdades.»
Ao contrário do que ele parece crer, rotular algo como disparate, apenas por ser alegado como metafísico é o verdadeiro disparate.
A ciência é uma deusa para essa gentalha. O que não pode ser explicado cientificamente não existe. Por isso que se alguém disser que, por exemplo, os sentimentos não podem ser cientificamente explicados, como o facto de um homem pôr-se a fazer coisas parvas quando está apaixonado e que jamais faria em "sã consciência", então é porque os sentimentos não existem de facto.
ResponderEliminarChesterton é que tinha razão: tornar-se católico não signfica deixar de pensar, mas sim aprender a pensar...