Domingo, 20 de Novembro de 2011

O ateísmo climático de Lúcio Mateus ( 3 )

Vou aguardar para ver se aparece uma resposta do Bernardo Motta à mais recente argumentação do "filósofo". Se não aparecer, espero que a malta do Portal Ateu não conclua que o Lúcio ganhou o debate por ter sido o último a escrever... Até porque ele escreveu sobretudo palha e queixas daquilo que ninguém lhe fez.

Quanto à reformulação do argumento para o ateísmo que apresentou, nada de novo:

« se há dúvidas quanto ao nível de relativismo linguístico e cultural subjacente aos fundamentos das ciências mais exactas, a crença na realidade ontológica do que é maximamente subjectivo do ponto de vista cultural (como o conceito de Deus) é reduzida ao absurdo. Foi este o meu argumento.»

Não foi bem esse o seu argumento. Mas também podemos comentar esta condição ( falaciosa) que ele agora apresenta. 

Se o Lúcio. tem dúvidas sobre o "nível" de relativismo linguístico e cultural subjacente aos fundamentos das ciências mais exactas, não demonstrou a racionalidade dessas dúvidas nem o que significa isso de "nível" de relativismo. Apenas teima que existe. Convém que se decida, porque, ou a matemática existe independentemente da cultura que a descobre e descreve numa linguagem própria; ou  é apenas uma construção da linguagem e relativa a essa cultura. Estamos a falar daquilo que as coisas são, ou não são. "Ser independente da cultura", exclui "ser dependente da cultura". E vice-versa.

Depois, o Lúcio também não demonstrou que o conceito de Deus é "maximamente subjectivo do ponto de vista cultural". Apenas referiu o caso anedótico de uma pequena população indígena incapaz de compreender o conceito dadas as suas limitações linguísticas. ( Foi esse o seu "argumento")

O que de maneira alguma pode levar à conclusão de que o conceito "Deus" é reduzido ao absurdo. Absurdo é ele repetir, em petição de princípio e por outras palavras, aquilo que já tinha concluído a partir de nada. Recordando:

«Tendo-lhe [ao missionário cristão] sido dado a ver de modo tão claro que a religião – qualquer religião – não passa de um construto cultural completamente influenciado pela língua, tornou-se ateu »

Conclusão que foi antecedida desta maravilha:

« A cultura Pirahã está inteiramente centrada no presente Não possuem, por exemplo, tempos verbais perfeitos e só com muita dificuldade falam do futuro próximo. (...) Nenhum membro da tribo conhece histórias do que quer que se tenha passado antes do tempo dos avós dos seus membros mais velhos. (...)

+

« Não faz sentido falar de Deus-Pai porque a palavra “pai” (ou “mãe”, tanto faz) designa apenas a geração imediatamente anterior. Não acreditam na vida depois da morte porque não falam de nada que ultrapasse os limites da experiência »

E mais à frente:

« Imaginem agora o que é tentar explicar a um povo com uma língua destas que devem viver a sua vida com base nos ensinamentos de um homem chamado Jesus, filho de Deus-Pai, que morreu há dois mil anos »

Portanto, o argumento do Lúcio Mateus foi este:

1. A linguagem verbal dos Pirahã está limitada ao presente.
2. A linguagem verbal dos Pirahã não aborda o que ultrapassa os limites da experiência
3. Logo, a linguagem verbal dos Pirahã não lhes permite compreender o que é basear a vida nos ensinamentos de Jesus, filho de Deus-Pai, que morreu há dois mil anos.

Que daí o Lúcio Mateus tenha concluído que foi dado a ver ao tal missionário que:

« a religião – qualquer religião – não passa de um construto cultural completamente influenciado pela língua »

... é a tal conclusão em modo non sequitur que já foi abordada pelo Bernardo. E eu também já tinha comentado a estupidez de dar o passado, os antepassados e o que supera a experiência como aquilo que tornaria algo "um construto cultural completamente influenciado pela língua". O que é o mesmo que dizer que o passado, os antepassados e o que supera a experiência, não são reais mas apenas construções da linguagem.

O Lúcio Mateus que tente outra. Será divertido vê-lo continuar a tentar justificar a ideia de que a incapacidade linguística de uma tribo indígena para compreender os conceitos do Cristianismo, é um motivo lógico e racional para alguém se tornar ateu.

Se já seria estranho alguém tornar-se ateu apenas por ter conhecido alguém que rejeitou uma religião, mais estranho é ver alguém que se tornou ateu apenas por ter conhecido alguém incapaz de a compreender.

1 comentários:

  1. É muito interessante o relato de Lúcio Mateus da desenvangelização de um antropólogo deslumbrado com uma vivência sob uma linguagem rudimentar. O ateismo, entre outras coisas, é mesmo isso: uma maneira mais pobre de expressar o que está à nossa volta.
    Mas se esse antropólogo apanhasse com uma dor de dentes e de ouvidos, isolado lá na aldeia dos índios, talvez tivesse ficado com menos vontade de viver assim.

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