Nos comentários ao texto, o Bernardo Motta já cilindrou praticamente tudo o que havia para cilindrar deste colar de pérolas de Lúcio Mateus, o "filósofo" do Portal ateu. Mas acho que seria divertido acrescentar um pouco mais. Começo por citar algumas partes do artigo do Lúcio:
« A cultura Pirahã está inteiramente centrada no presente Não possuem, por exemplo, tempos verbais perfeitos e só com muita dificuldade falam do futuro próximo. (...) Nenhum membro da tribo conhece histórias do que quer que se tenha passado antes do tempo dos avós dos seus membros mais velhos. (...)
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« Não faz sentido falar de Deus-Pai porque a palavra “pai” (ou “mãe”, tanto faz) designa apenas a geração imediatamente anterior. Não acreditam na vida depois da morte porque não falam de nada que ultrapasse os limites da experiência »
« A cultura Pirahã está inteiramente centrada no presente Não possuem, por exemplo, tempos verbais perfeitos e só com muita dificuldade falam do futuro próximo. (...) Nenhum membro da tribo conhece histórias do que quer que se tenha passado antes do tempo dos avós dos seus membros mais velhos. (...)
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« Não faz sentido falar de Deus-Pai porque a palavra “pai” (ou “mãe”, tanto faz) designa apenas a geração imediatamente anterior. Não acreditam na vida depois da morte porque não falam de nada que ultrapasse os limites da experiência »
Conclui mais à frente:
« Imaginem agora o que é tentar explicar a um povo com uma língua destas que devem viver a sua vida com base nos ensinamentos de um homem chamado Jesus, filho de Deus-Pai, que morreu há dois mil anos »
E depois:
« Tendo-lhe [ao missionário cristão] sido dado a ver de modo tão claro que a religião – qualquer religião – não passa de um construto cultural completamente influenciado pela língua, tornou-se ateu »
Portanto,
à tribo Pirahã, por incapacidade linguística, é impossível apreender o Cristianismo. Logo, qualquer religião não passa de um construto cultural completamente influenciado pela língua. A tribo Pirahã torna-se divina e a medida do possível e do necessário.
Como explicou o Bernardo, pela mesma lógica teríamos de considerar a matemática, a lógica, a física, e todas as outras coisas que a tal tribo não consegue compreender por incapacidade linguística, meros construtos culturais. Teríamos de incluir, não só o ateísmo nesse grupo, mas sobretudo a própria afirmação de que qualquer religião não passa de um construto cultural. Não consta que os Pirahã tenham palavras para compreender tão belo raciocínio...
Mas o "filósofo" teimou e reforçou o seguinte ponto na resposta que deu ao Bernardo:
à tribo Pirahã, por incapacidade linguística, é impossível apreender o Cristianismo. Logo, qualquer religião não passa de um construto cultural completamente influenciado pela língua. A tribo Pirahã torna-se divina e a medida do possível e do necessário.
Como explicou o Bernardo, pela mesma lógica teríamos de considerar a matemática, a lógica, a física, e todas as outras coisas que a tal tribo não consegue compreender por incapacidade linguística, meros construtos culturais. Teríamos de incluir, não só o ateísmo nesse grupo, mas sobretudo a própria afirmação de que qualquer religião não passa de um construto cultural. Não consta que os Pirahã tenham palavras para compreender tão belo raciocínio...
Mas o "filósofo" teimou e reforçou o seguinte ponto na resposta que deu ao Bernardo:
« As religiões são construtos culturais cujas únicas condicionantes são internas à própria cultura »
Então, posso concluir que para o Lúcio Mateus, o tempo, os antepassados e aquilo que ultrapassa os limites da experiência, são as tais "condicionantes internas à própria cultura". Foi a ignorância sobre esses assuntos que ele identificou como aquilo que impossibilitou o missionário de ensinar à tribo o que era o Cristianismo.
Resumindo, se os Pirahã.não conhecem, nem compreendem algo então isso não existe. É só uma construção cultural de outros povos. Este não é um caso de ateísmo. É um caso de conversão a outra religião. O missionário da história deixou de adorar Cristo, para passar a adorar uma tribo de índios, como se fosse a omnisciência incarnada. E o Lúcio Mateus acha esta última opção uma coisa espectacular. Aliás, parece que ele também adora essa tribo como divindade.
Por exemplo, descreve:
"esta tribo nem sequer tem verbos terem de ser associados a um sufixo que indica a fonte da informação contida na frase. Por exemplo, se disserem “o pássaro voa”, o verbo “voar” tem de ser associado a uma palavra que indica se o passaro foi “visto” a voar, se se “ouviu dizer” que um pássaro voa, etc.»
[Curiosidade: se a cultura desse povo "está inteiramente no presente" como pode simultaneamente a sua língua exigir que descrição de um pássaro indique se o pássaro "foi visto" a voar, "se se ouviu" dizer que um pássaro voa, e etc.?!]
E conclui:
« Daí alguém já lhes ter chamado “super-empiristas”. Os Pirahã não se limitam a exigir provas para qualquer afirmação que se faça, como alguém invulgarmente céptico faria. É mais do que isso – uma frase que não inclua esses dados na sua formulação simplesmente não faz sentido. »
A conclusão é absurda, porque os Pirahã, segundo a descrição do próprio Mateus, não são invulgarmente cépticos nem exigem prova para qualquer afirmação que se faça. É menos, e nada a ver com isso: os Pirahã não conseguem descrever, nem pensar, o próprio princípio da identidade ou a noção de que as coisas conhecidas existem para além do conhecimento. Eles não têm noção do que seja epistemologia, muito menos prova. Ou seja, o raciocínio dessa gente é muito limitado. Quase tanto como o do Lúcio Mateus, que depois também concluiu esta maravilha:
« O que esta cultura “primitiva” fez, portanto, não foi mais do que tornar explícito a Everett o que é viver realmente de acordo com as exigências da ciência até às últimas consequências, e não apenas até àquele ponto em que essas exigências começam a chocar com outras culturalmente mais “importantes”. »
À partida, nem se compreende o que significaria essa coisa da ciência ter exigências para a vida das pessoas.
O que essa cultura primitiva faz, não é mais do que viver em total ignorância sobre o que é a ciência. Um povo que não sabe matemática, nem tem noção de que existem coisas para além da sua experiência, está condenado a nunca desenvolver ciência. Quanto mais "viver realmente de acordo" com as suas ditas e supostas "exigências". Continuando com o brilhante Lúcio:
«Não tenha dúvidas de que a matemática é culturalmente relativa e linguisticamente dependente. Os Pirahã, por exemplo, não têm qualquer conceito de número. Logo, se a Matemática não surgiu em pelo menos uma cultura, podia nunca ter surgido. »
É preciso comentar? A ignorância de uma tribo primitiva é a referência ontológica do Lúcio Mateus.
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Será que o Lúcio Mateus conseguiria explicar aos Pirahã o que é o ateísmo ?
Não me parece. É que não sendo possível explicar aos Pirahã o que é o Cristianismo, também não seria possível explicar-lhes a dita falsidade do Cristianimo e das restantes religiões.
É inexplicável a tentativa de transformar a ignorância dos Pirahãs num caso de ateísmo. A não ser que o Lúcio Mateus esteja a confessar que ateísmo e ignorância são sinónimos...
Quanto à segunda parte do texto, que associa o surgimento do monoteísmo à cultura do deserto; é apenas um extenso apelo à falácia genética. Nem vale a pena comentar essa parte. Apostando no cavalo " a origem do monoteísmo", já não se está a discutir se o monoteísmo é falso ou verdadeiro.
No final, o Lúcio Mateus convida "o leitor crente" a pensar seriamente nestas palavras do missionário convertido ao ateísmo pela ignorância de um povo primitivo:
« Os Pirahã mostraram-me a dignidade e a enorme satisfação de encarar a vida e a morte sem o conforto do Céu ou o medo do Inferno e em navegar em direcção ao grande abiso com um sorriso »
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Será que o Lúcio Mateus conseguiria explicar aos Pirahã o que é o ateísmo ?
Não me parece. É que não sendo possível explicar aos Pirahã o que é o Cristianismo, também não seria possível explicar-lhes a dita falsidade do Cristianimo e das restantes religiões.
É inexplicável a tentativa de transformar a ignorância dos Pirahãs num caso de ateísmo. A não ser que o Lúcio Mateus esteja a confessar que ateísmo e ignorância são sinónimos...
Quanto à segunda parte do texto, que associa o surgimento do monoteísmo à cultura do deserto; é apenas um extenso apelo à falácia genética. Nem vale a pena comentar essa parte. Apostando no cavalo " a origem do monoteísmo", já não se está a discutir se o monoteísmo é falso ou verdadeiro.
No final, o Lúcio Mateus convida "o leitor crente" a pensar seriamente nestas palavras do missionário convertido ao ateísmo pela ignorância de um povo primitivo:
« Os Pirahã mostraram-me a dignidade e a enorme satisfação de encarar a vida e a morte sem o conforto do Céu ou o medo do Inferno e em navegar em direcção ao grande abiso com um sorriso »
Já dizia C.S Lewis, se a questão é a felicidade, uma garrafa do vinho do Porto serve perfeitamente. Mas se a questão é a verdade, o caso muda de figura.
Aquilo que os Pirahã ignoram, não os pode incomodar, preocupar ou motivar ? Muito bem.
O facto é que os Pirahã também têm tudo para encarar, com grande dignidade, satistação e sorrisos ;doenças e infecções que ignoram. Estas não deixarão de se manifestar por causa disso.
Um ateu, alguém que tem consciência daquilo que nega, revela alguma covardia quando se quer esconder atrás da ingénua felicidade daqueles que ignoram muita coisa, incluindo o que seja o ateísmo e a auto-ajuda que vende a ilusão de um mundo melhor sem religiões.
O Bernardo reduziu a poeira o referido artigo bobo (ou, como dizemos cá no Brasil: bocó).
ResponderEliminarMas bom mesmo foi a "defesa" do "filósofo" (haja aspas): segundo ele, a réplica do Bernardo foi "ultra-maniqueísta" (!) e que iria se ausentar para depois postar uma resposta pormenorizada. Ah! Esses ateus ainda vão me matar de crise de riso.
Sério, Jairo: o caro é - como diríamos cá no Brasil - um mané. Como alguém se mete a filósofo e escreve baboseiras como a de que é necessário provas empíricas para algo ser tornado "conhecimento"? Foi a conta para o Bernardo indagar sobre os princípios da lógica. Vou aguardar o que ele tem para refutar. Ora, até para quem é básico no assunto (meu caso), soa inacreditável um dito "filósofo" negar a própria filosofia com a empáfia ridícula do cientificismo bocó.
«Ah! Esses ateus ainda vão me matar de crise de riso.»
ResponderEliminarÉ. Nesse sentido, o artigo e as respostas dadas podem ser vistas como autênticas tentativas de homicídio... :)
O Orlando Braga também fez o Lúcio Mateus em picadinho. Resposta do "filósofo":
« Não espera mesmo que eu comente esse chorrilho de idiotices que escreveu, pois não? »
http://www.portalateu.com/2011/10/31/o-deus-climatico/#comment-18904
Que comédia.